* Carlos Modesto
Em julho de 1997, morria em nossa cidade José Bispo dos Santos mais conhecido como Zeca do Pandeiro. Certamente Deus o chamou para o céu para alegrar os anjos e querubins, da mesma forma que aqui na Terra divertiu seus semelhantes.
Ele talvez tenha sido o último tipo popular que Estância já abrigou. Participante ativo da história dos nossos carnavais, aqui tornou-se famoso e querido por travestir-se de mulher nos dias da folia momesca.
Bom de conversa, folgazão e matreiro, esse jovem de quase oitenta anos, que parecia ter sessenta, me encantou na sua simplicidade e jovialidade, demonstrando nesta matéria antes de partir para o andar de cima, que sua vida continuava sendo um eterno carnaval.
Boêmio inveterado das noitadas dos velhos cabarés, músico nato, tocador de vários instrumentos musicais, inclusive o pandeiro, que tão bem executava o tornando popularmente conhecido como Zeca do Pandeiro. Ele também possuía uma voz vibrante e caso ela tivesse sido meticulosamente treinada, certamente seria um cantor de sucesso se morasse numa cidade grande.
Além de ter sido cronner do seu grupo musical, e participado de vários eventos na Estância e em outras cidades do Estado, esse expansivo folião da vida transmitiu em seu depoimento a simplicidade de uma alma pura que, em certos momentos tocou-me profundamente ante o lirismo da inocência das suas palavras. O seu nome se confunde nos anais dos saudosos carnavais do passado da nossa querida e alegre cidade.
Zeca do Pandeiro nasceu em Boquim, Sergipe, Saiu de casa com oito anos de idade, para viver em Aracaju. Lá ele trabalhou numa padaria onde todas as manhãs bem cedo ia entregar pães no Iate Clube e na época se chamava Praia Formosa. Naquele tempo o transporte era charrete e carroça, e ele trabalhando na Padaria Piranji, situada na Rua Santo Amaro.
Depois de certo tempo na capital sergipana voltou a Boquim, não se acostumando mais viver em sua cidade natal, avisou a sua mãe que ia experimentar morar na Estância. Naquela época transporte não tinha, ele veio com os caranguejeiros que saiam de Estância para vender caranguejos em Boquim. Quando chegou no Cajueiro pediu um rancho na casa do Sr. Neneto, que foi prefeito, arranjou-lhe uma pousada e lá ficou. Rapaz de boa aparência e cheio de vida, uma garota aproximou-se dele e começaram a namorar. Ela perguntou ao Zeca se ele queria trabalhar na fábrica, assim, no outro dia, foi trabalhar no seu primeiro emprego na Estância.
Chegando na fábrica, sabia ele o que era fábrica? Seu primeiro trabalho tinha sido numa padaria. Ele estava com 13 anos de idade, mais ou menos. Aí o Dr. Percy (cidadão inglês, na época era o administrador da Fábrica Senhor do Bonfim) mandou que ele fizesse uma ficha. O Dr. Percy gostou muito dele e o colocou inicialmente no salão de fazenda, depois passou para a tecelagem e em outros setores do empório, rodou a fábrica toda: fiação, tinturaria, alvejaria, boca de caldeira e oficina.
Com o passar do tempo, até essa altura não havia lei que protegesse o operário. Depois com o presidente Getúlio Vargas foi que nasceu os direitos do trabalhador. Veio o sindicato e tudo que tinha direito o operário. Zeca fez parte do sindicato e continuou trabalhando na Fábrica Senhor do Bonfim, agora, permanentemente, na engomadeira de fio.
Quando Zeca foi votar pela primeira vez o Dr. Pedro Soares o chamou para votar nele, mas o jovem disse que não tinha registro, mas tinha o batistério, que o médico mandou aumentar a idade de Zeca em cinco anos para votar nele. Continuou trabalhando na fábrica onde conheceu uma moça, escriturária da Fábrica Piauitinga, chamada Núbia, que ele gostava muito dizendo tempos depois: “Ela aguentou todas as minhas cachaças e as minhas brincadeiras”.
Como nasceu o apelido Zeca do Pandeiro
O primeiro instrumento musical usado por ele foi a harmônica, uma pedrosa de oito baixos. Cujo domínio aprendeu em Boquim, junto com seus dois primos Santinho e Tonho. Quando chegou na Estância passou a fazer parte do conjunto de jazz da Fábrica Senhor do Bonfim, aí ele mudou, deixou a sanfona de lado e partiu para o pandeiro. Possuidor de uma bela voz cheia de vida, que chamava a atenção quando ele cantava em qualquer lugar sem precisar usar o microfone, o pulmão era bastante forte mesmo… tinha muita força naquele tempo, chegando a pesar 75 quilos. Ele chegou a pensar que nunca ia ficar velho.
Tempos depois, a fábrica já sob o comando do Sr. Constâncio Vieira lhe disse: “Você vai numa festa comigo numa caravana para tocar na Fábrica Confiança, vai ser um evento do Dr. Joaquim, você vai tocar lá com a orquestra da fábrica muito boa pra você cantar para os homens ver lá”, e ele foi. O Dr. Joaquim com aquele orgulho todo, era gente boa e tudo mais. Depois foi pegando o nome Zeca do Pandeiro, Zeca do Pandeiro e Zeca do Pandeiro. Com a continuidade, Dr. Júlio Leite, proprietário da Fábrica Santa Cruz e da Senhor do Bonfim viu como ele cantava, tinha conhecimento do repertório musical de Zeca, o convidou para participar numa festa na “Central” em Maroim, Sergipe, pertencente ao Coronel Gonçalo Prado, sendo a festa muito caprichada mesmo…
Zeca do Pandeiro começou sua vida de boêmia quando conheceu Enedino e Gileno, duas pessoas que se tornaram seus grandes amigos. Também tinha outros chamados João Bispo e Zé Gordinho. Alguns desses homens tocavam violão, outros cavaquinho, Zeca foi treinando com eles chegando ao extremo do que queria, daí passou a ser cantor. Não teve o prazer de ter gravado um disco, pois naquela época era a coisa mais difícil do mundo e nem se falava em gravação. Mas se fosse possível, claro, ele, teria feito seu disco, pois o seu repertório como disse acima era grande.
Certa ocasião uma orquestra famosa do Rio de Janeiro, a de Ruy Rey, que veio tocar na Estância pediu para ele bater o pandeiro, não só bateu o pandeiro como também cantou na orquestra do Ruy Rey. Essa inesquecível apresentação foi presenciada por várias personalidades da nossa cidade.
Quando o filho de Constâncio Vieira, Robertão acabou com a orquestra da Fábrica Bonfim, Zeca do Pandeiro junto com os amigos Enedino, Gileno, João Bispo, Galo, Trombone e Chico do Pistom ficaram brincando por conta própria.
Travestido de mulher
Ele começou a sair travestido de mulher nos carnavais da década de 1940. Ele se trajava de mulher na parte da manhã, gostava de vestir uma indumentária feminina para encontrar com seus colegas no intuito de tomar cachaça e fazer aquelas milongas. Na parte da tarde ele ia puxar o “cordão”. Chamava cordão de carnaval, aquela ala muito bonita com aquelas moças belas e ele como baliza na frente, agora, com outro tipo de fantasia.
Os carnavais do tempo de Zé do Pandeiro
No seu tempo existiam vários blocos, cada qual melhor, mas o da Fábrica Bonfim tinha um rapaz que lá trabalhava chamado Darcy, que preparava aqueles carros bonitos para os estancianos brincarem o carnaval. A esposa do Zeca, saía com o Sr. Arnaldo, padrinho dela (dono da Fábrica Piauítinga), enquanto ele saía no bloco da Fábrica Senhor do Bonfim com o Sr. Constâncio Vieira. O carnaval daquele tempo fazia gosto porquê a serpentina e o confete rolava ali, o lança-perfume era espetacular.
O Cineteatro São João de propriedade do Sr. Diógenes Freire na época dos carnavais Zeca frequentou bastante, mas a folia dele era no salão do “Grêmio”, pertencente a Fábrica Senhor do Bonfim. Nesse empório trabalhava o Sr. Félix Rocha no setor da motriz, então, certa vez ele fez um navio com aqueles canhões com sacos cheios de confetes, e quando dava os tiros dentro do clube, cobria tudo de confetes. Depois o Sr. Constâncio Vieira mandava fechar as portas até amanhecer o dia. Assim fazia gosto brincar o carnaval. A festa momesca rolava na Praça da Matriz, e quem passava no bairro do Bonfim sentia o cheiro dos lança-perfumes. Naquele tempo não tinha maconha nem cocaína, não existia droga nenhuma, Se uma pessoa cheirava o lança-perfume, cheirava porque gostava, mas não era com intenção de fazer a cabeça.
O final de uma era alegre
Com a continuidade da vida os colegas de Zeca do Pandeiro foram morrendo, morreu Zé Bispo, morreu Gileno, morreu Enedino, Morreu Zé Gordinho, e ele foi ficando, depois tinha Heleno, que tocava com ele foi pra Propriá, chegando lá morreu porque era filho dessa cidade. Zeca ficou na Estância. Depois antes do Golpe Militar dos anos de 1960, ele se aposentou, viajou para o Rio de Janeiro e quando chegou lá estourou a revolução, presenciando tudo de perto.
Zeca do Pandeiro nasceu n cidade de Boquim, Sergipe, em 1° de novembro de 1920 e faleceu na Estância em julho de 1997. Era casado com a Sra. Núbia de Oliveira Santos, ex-funcionária do escritório da Fábrica Piauítinga, teve com ela sete filhos, de onde a família ampliou-se para 37 netos e 43 bisnetos. Sem dúvida, ele foi o folião mais alegre dos nossos carnavais. O seu nome não se confunde apenas com a história dos carnavais, ele também fez parte do romantismo de uma época. Viveu o mundo musical dos cabarés e das noitadas do Grêmio, dos eventos marcantes da nossa cidade onde nela encontrou guarida traçando uma trajetória de alegria, fazendo da sua vida um pandeiro, ao lado dos seus companheiros de talento.


