* Thiago Modenesi
Há 25 anos, o mundo assistia, pela televisão, aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Quase três mil pessoas morreram naquele dia, vítimas de uma violência que deve ser inequivocamente condenada. Mas, um quarto de século depois, lembrar o 11 de Setembro exige também perguntar o que veio depois.
Os atentados inauguraram uma nova etapa da política internacional. Sob o argumento de combater o terrorismo, os Estados Unidos lançaram a chamada Guerra ao Terror, invadiram um mês depois o Afeganistão e, dois anos depois, o Iraque. O que inicialmente parecia uma resposta aos responsáveis pelos ataques transformou-se em um projeto muito mais amplo de reorganização geopolítica.
É justamente aí que uma leitura marxista se torna necessária. Não para negar o terrorismo, relativizar seus crimes ou aderir a teorias conspiratórias, mas para compreender como uma tragédia foi incorporada à disputa pelo poder mundial. O 11 de Setembro ocorreu quando os Estados Unidos viviam o auge de sua hegemonia após o fim da Guerra Fria. Washington possuía uma superioridade militar sem rival e buscou transformar essa vantagem em uma ordem internacional ainda mais subordinada aos seus interesses.
A invasão do Iraque tornou evidente essa lógica. Saddam Hussein não participou dos atentados e as supostas armas de destruição em massa jamais foram encontradas. Ainda assim, uma guerra foi travada em nome da segurança mundial. O resultado foi devastador.
Há aqui uma das grandes contradições do capitalismo contemporâneo: a guerra é apresentada como instrumento de segurança, mas também movimenta enormes volumes de recursos públicos e fortalece a indústria militar, os setores de segurança, inteligência e tecnologia bélica. A guerra, portanto, não é apenas uma questão militar. É também econômica e política.
O próprio Estado passa a ser reorganizado em torno da ideia de uma ameaça permanente. Vigilância, controle de fronteiras, expansão dos serviços de inteligência, drones, operações especiais e mecanismos de exceção tornaram-se elementos permanentes da política internacional.
O terrorismo, depois de 2001, deixou de ser apenas um inimigo a ser combatido. Tornou-se também uma categoria capaz de justificar novas formas de controle. Mas existe outro paradoxo.
A Guerra ao Terror demonstrou a extraordinária capacidade militar dos Estados Unidos, mas também revelou os limites dessa força. Depois de duas décadas de ocupação, os norte-americanos deixaram o Afeganistão em 2021 e o Talibã voltou ao poder. Ao mesmo tempo, o mundo mudou.
A China tornou-se uma potência econômica e tecnológica de primeira grandeza. A Rússia recuperou capacidade de projeção militar. Países do Sul Global passaram a reivindicar maior autonomia. O sistema internacional tornou-se mais competitivo e menos subordinado a uma única potência.
O 11 de Setembro, nesse sentido, pode ser visto como um paradoxo histórico: o acontecimento que levou os Estados Unidos a ampliar extraordinariamente sua presença militar no mundo também marcou o início de uma longa crise de sua capacidade de transformar superioridade militar em hegemonia política duradoura. Vinte e cinco anos depois, ainda vivemos sob muitas das consequências daquele dia.
A guerra mudou de forma. Hoje ela também acontece por meio de drones, inteligência artificial, ciberataques, sanções econômicas, operações clandestinas e guerras de informação. O terrorismo continua existindo, mas já não ocupa sozinho o centro da agenda internacional. A disputa entre grandes potências voltou a definir boa parte da geopolítica mundial.
Por isso, lembrar o 11 de Setembro não pode significar apenas recordar os mortos nas torres do World Trade Center e nos demais ataques. É preciso lembrar também os milhões de seres humanos atingidos pelas guerras que vieram depois. Uma vida em Nova York não vale mais ou menos do que uma vida em Bagdá, Cabul ou Gaza.
Condenar o terrorismo e criticar o imperialismo não são posições contraditórias. Ao contrário: são partes da mesma defesa da vida humana. Passados 25 anos, talvez a principal pergunta seja simples: a Guerra ao Terror tornou o mundo mais seguro ou apenas normalizou a ideia de guerra permanente?
A história das últimas duas décadas sugere que, em nome da segurança, construímos também um mundo mais militarizado, mais vigiado e profundamente marcado pela disputa por poder. O 11 de Setembro não criou essas contradições. Mas as acelerou. E compreender essas contradições é fundamental para entender o mundo em que vivemos hoje.
* Thiago Modenesi, doutor em Educação, professor do Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste da UFPE, historiador e especialista em Ciência Política.


