Os cabos eleitorais e dois impactos sobre a democracia

O candidato pode receber ajuda da parte de familiares, de amigos, de vizinhos, de advogados, de coordenadores e de estrategistas. Isso é tudo? Claro que não. A esse grupo precisam ser agregados os cabos eleitorais

* Afonso Nascimento
A eleição é um processo de seleção de representantes políticos ou de elites representativas para os governos municipal, estadual e federal. A palavra-chave nessa definição é representante ou representação. A não ser em pequeníssimas comunidades políticas, é possível existir eleição direta ou democracia direta. Disso resulta que, querendo ou não, a democracia só pode ser indireta ou não será. Como os membros das comunidades políticas compostas por eleitores e candidatos, então, selecionam alguns entre aqueles que se apresentam como candidatos a representantes?
Essa pergunta remete ao problema de saber quais os recursos materiais e humanos de que dispõem os candidatos para se fazerem eleger, os quais, já se sabe, estão distribuídos desigualmente entre eles. Em uma lista incompleta, podem ser citados recursos financeiros (dinheiro), acesso às redes sociais e aos programas televisivos e radiofônicos, o poder da fala dos candidatos, capacidade de prestação de serviços antes e durante os processos eleitorais etc. Deixei de lado os recursos humanos do breve inventário acima.
Nenhum candidato se elege sozinho, sem ter ajuda de pessoas de seu entorno. Por mais convincente que seja a sua retórica dirigida a grupos de eleitores, o candidato precisará de auxiliares de campanha porque ele não pode pensar sozinho em todos os problemas (e as suas soluções) que aparecem ao longo da corrida eleitoral.
Assim, ele pode receber ajuda da parte de familiares, de amigos, de vizinhos, de advogados, de coordenadores e de estrategistas. Isso é tudo? Claro que não. A esse grupo precisam ser agregados os cabos eleitorais. Por maior que seja a disposição física e mental para visitar, sozinho, casas, feiras, mercados, clubes de futebol e sociais, associações etc., sem cabos eleitorais, ele poderá não ser bem-sucedido na sua empreitada. Os cabos eleitorais sempre serão indispensáveis para eleger representantes políticos. Por que?
O candidato precisa ter a seu lado pessoas que o levem para perto de seus possíveis eleitores. Pessoas que ajudem a convencer o eleitor de que aquele concorrente é uma boa escolha para esse ou aquele mandato. O que nem sempre acontece, porque outros cabos eleitorais podem estar fazendo o mesmo esforço de persuasão. Em que, então, consiste o trabalho do cabo eleitoral no mercado político? Trata-se de um trabalho de mediação entre o candidato a um mandato eletivo e o eleitor.
Cabos eleitorais são mediadores políticos e também são chamados de militantes, ativistas etc. Embora nem sempre seja o caso, o sonho de grande número deles, homens e mulheres, é tornar-se titular de mandatos eleitorais. Eles tornam palatáveis os nomes e as pessoas dos candidatos junto a eleitores. Para esse trabalho político, os cabos eleitorais necessitam ter algumas habilidades, entre as quais podem ser mencionadas a capacidade de circular em diversos grupos, ter facilidade na comunicação, pertencer aos grupos que quer convencer, ter tempo livre para transitar entre bairros e cidades, fazer caminhadas, carreatas, saber falar em público, colocar nas redes sociais informações sobre o cotidiano do candidato, reunir pessoas no meio da rua, em casas ou em pequenos e grandes espaços para apresentar o seu candidato e por aí vai.
Não tenho uma classificação fechada dos cabos eleitorais, porém, inicialmente, acho que eles podem ser divididos em dois grandes grupos: os cabos eleitorais voluntários e os cabos eleitorais remunerados. Voluntários são aqueles e aquelas que vestem a camisa do candidato e de sua candidatura em troca de nada. Ou pelo prazer de fazer avançar as causas que seu candidato diz ser porta-voz. Eles são muito comuns na esquerda. Veja o caso dos antigos militantes do Partido dos Trabalhadores. Hoje em dia, muitos ativistas e fanáticos da extrema-direita também entram nesse perfil.
O tipo de cabo eleitoral remunerado existe em todo o espectro ideológico. Direita, esquerda e centro compram os serviços de cabos eleitorais sem nenhum constrangimento, basicamente porque todos os candidatos buscam o mesmo objetivo que é a sua (re) eleição.
Cabos eleitorais costumam ser contratados para cada processo eleitoral, mas não possuem vínculos empregatícios. E podem subcontratar outros colegas de profissão para estender o espaço de sua “jurisdição”. Na maioria das vezes recebem seus salários na forma de dinheiro vivo. Outros recebem salários como auxiliares do mandato do candidato eleito na eleição passada. Políticos gostam de tê-los por perto porque, assim, pastoreiam os seus eleitores entre uma eleição e outra.
Existem também os cabos eleitorais já tentaram algum mandato eletivo e não lograram sucesso. A despeito disso, dispõem de algum capital eleitoral que dizem poder transferir para o candidato. Outros cabos eleitorais já tiveram ou têm mandato eletivo e também acreditam poder transformar a sua influência em votos para o seu patrão eleitoral. Penso especialmente em (ex)prefeitos e (ex)vereadores, mas também podem ser incluídos nessa lista ex-governadores, deputados etc.
Pelo que descrevi até aqui, não há nenhuma restrição a fazer aos cabos eleitorais. No entanto, existem cabos eleitorais que entram no jogo da compra de votos de eleitores. Alguns dizem que esses colegas são uma minoria. Verdade? Outros me disseram que, quando isso acontece, a maioria não toca em dinheiro vivo (retirado de bancos e guardado em casa meses antes do dia da eleição). O dinheiro usado na compra de votos de eleitores de bairros, periferias e povoados bem populares nunca é entregue de uma só vez. Uma parte é paga antes e a outra depois da checagem dos boletins de urnas de zonas em que votam esses eleitores. Não se pode esquecer que esses eleitores entregam dados pessoais e eleitorais a cabos eleitorais antes da votação. Ninguém tem interesse em jogar dinheiro fora. Da mesma forma que, no mercado político, voto é mercadoria, dinheiro também é. Só que, aí, o cabo eleitoral trabalha contra a democracia e entra no mundo do crime.
* Afonso Nascimento, professor de Direito Aposentado da UFS
Compartilhe esta notícia