Homem é morto no enterro da irmã, também assassinada

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Duas pessoas de uma mesma família foram assassinadas a tiros neste final de semana na zona oeste de Aracaju, em dois crimes seguidos. Às 23h de sábado, a dona de casa Claudeci Oliveira Santos, 44 anos, morreu com seis tiros de pistola na porta da própria casa, no Jardim Centenário, por um homem que desceu de um carro guiado por dois comparsas. No dia seguinte, às 17h30 de domingo, o ex-presidiário Milton César Oliveira, 39, irmão de Claudeci e funcionário de uma empresa terceirizada da Petrobras, também levou seis tiros ao ser atacado na porta do Cemitério São João Batista, no Castelo Branco, instantes depois de assistir ao sepultamento do corpo da irmã.

O caso é investigado pela equipe da delegada Thereza Simony Nunes Silva, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil, que ouviu o depoimento de seis pessoas por todo o dia de ontem. As mortes chamaram a atenção da polícia pela ousadia dos assassinos e pela suspeita da autoria de um mesmo grupo para ambas. A principal hipótese é de que traficantes da região teriam matado as vítimas para perseguir o filho de Claudeci, o qual teria uma suposta dívida de drogas com eles, conforme informações iniciais da polícia. Elas apontam também que toda a família do rapaz passou a ser ameaçada pelos marginais.

"Os assassinos, envolvidos com drogas, foram à residência de Claudeci para tentar tirar a vida do filho dela, que segundo familiares, tem envolvimento com drogas. Não conseguindo matar o adolescente, eles tiraram a vida da mãe dele. Usando o mesmo modus operandi, eles retornaram ao cemitério no dia seguinte, porque imaginavam eles que o  filho estaria presente no enterro da mãe. Só que a família já tinha orientado o rapaz a não comparecer, por medida de segurança, e eles [os bandidos], não contentes com a situação, executaram o Milton César, tio dele", relatou o cabo Amintas Oliveira, da Companhia de Radiopatrulha (CPRp) da Polícia Militar, que acompanhou os dois crimes.

Segundo a queixa registrada na Delegacia Plantonista, Claudeci estava na porta de casa conversando com uma vizinha quando o carro, um Corsa Sedan de cor branca, chegou ao local. Um dos ocupantes desceu calmamente e conversou um pouco com as mulheres, possivelmente perguntando pelo adolescente. De repente, o homem sacou a pistola e atirou seis vezes contra o peito e a cabeça da dona de casa, que morreu na hora. Diante da vizinhança atônita, o criminoso correu para o Corsa, que arrancou em seguida. A cena foi presenciada por um dos parentes da vítima, que estavam no outro lado da rua.

Táxi roubado – Entre as mortes de Claudeci e de Milton, um terceiro crime foi cometido pelos suspeitos: o sequestro-relâmpago de um taxista não-identificado que fazia ponto no Cj. João Alves, em Nossa Senhora do Socorro (Grande Aracaju). Por volta das 17h, ele foi abordado por quatro pessoas, incluindo um travesti que ficou no banco da frente. Segundo a queixa prestada pelo motorista, eles pediram uma corrida até uma favela no Cj. Bugio, vizinho ao Jardim Centenário, e, depois de pegar uma sacola em um barraco, renderam o taxista com uma arma, mandando-o seguir até o cemitério.

O refém contou à polícia que, chegando ao cemitério, os três homens desceram do táxi e ficaram alguns minutos em uma esquina, aguardando a saída dos familiares de Claudeci. Quando eles começaram a se concentrar na entrada, os três homens desceram do táxi e o travesti ficou sentado no banco da frente. Tiros foram ouvidos ao longe e o taxista, com medo, abandonou o próprio carro e fugiu correndo, sem ser perseguido pelo comparsa. Enquanto isso, as pessoas que assistiam ao enterro de Claudeci foram acuados pelos disparos dos criminosos, que abordaram Milton Cesar e o mataram com seis tiros, atingindo-o no peito e na cabeça.

Os outros familiares chegaram a entrar no cemitério novamente para fugir do ataque, mas os criminosos voltaram para o táxi roubado e fugiram até a Avenida Tancredo Neves, onde abandonaram o veículo e roubaram outro táxi. Antes da fuga, porém, conforme testemunhas, eles teriam prometido matar todos os parentes do adolescente a quem procuravam. "Estamos com muito medo e assustados, nunca vi isso de sair matando por causa do erro dos outros. Eles não vão parar enquanto meu sobrinho não pagar o que está devendo", afirmou uma irmã das vítimas.

O corpo do ex-presidiário foi sepultado ontem à tarde, com escolta de soldados do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq). "A ousadia dos bandidos foi tremenda, porque eles não pensaram nem em fugir do primeiro homicídio e já foram praticar o segundo. Cometeram esse engano terrível de tirar a vida de duas pessoas que nada tinham a ver com o tráfico", completou o cabo Amintas, garantindo que a atitude dos assassinos "vai ter resposta" da polícia. Até a tarde de ontem, nenhum dos criminosos foi capturado.

Passado condenado? – Milton, que morava em Carmópolis (Vale do Cotinguiba) e trabalhava em uma empresa terceirizada, veio para Aracaju apenas para ver o enterro da irmã e foi descrito como um homem trabalhador, que não tinha nada a ver com o tráfico. No entanto, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) divulgou ontem à tarde a ficha criminal da vítima, que tem passagens e condenações na Justiça por crimes de roubo desde novembro de 2000. Na ocasião, ele foi custodiado na extinta Casa de Detenção de Aracaju (CDA).

Os dados são do Sistema de Administração Penitenciária (SAP), mantido pela Secretaria de Estado da Justiça (Sejuc), os quais registram períodos de detenção nos presídios de Nossa Senhora da Glória, Presídios de São Cristóvão e Tobias Barreto. Entre os crimes de que foi acusado, estão os assaltos ao Banese de Laranjeiras, a um abatedouro no Mercado Central de Aracaju e à sede do Departamento de Estradas e Rodagem (DER), na capital. Milton também foi preso em meados de 2004, após a polícia conseguir impedir um assalto que seria realizado por sua quadrilha, e chegou a ser investigado por um homicídio.

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