Passei a conviver no Rio de Janeiro, com pessoas muito interessantes. Outras, nem tanto. Foi nos corredores da Globo, no Jardim Botânico, que vim a conhecer o diretor polonês Ziembinski, uma espécie de mito para os atores principiantes. Fiquei encantado em merecer a atenção dele e sonhava que nossa amizade me levasse a atuar numa peça ou num teleteatro, sob sua direção. Ziembinski alimentou minha fantasia. Sabia reconhecer um talento com pouca experiência. Levou-me a restaurantes caros, serviu-me vinhos finos e, apesar de toda aquela liberalidade, decidi ignorar seus planos em favor dos meus.
Uma noite, fomos tomar um último drinque no apartamento dele, em Ipanema, e o diretor começou a me assediar com bebidas e revistas pornográficas importadas, até que fiquei bêbado (não estava habituado com a bebida) e um tanto excitado. Ele me instalou numa poltrona confortável e sentou-se aos meus pés, no chão, exibindo as fotos pornográficas das revistas. Folheava a publicação e enchia meu copo, prometendo me transformar num ator famoso, num verdadeiro astro. E eu já estava "chumbado" o suficiente para acreditar. Antes que eu processasse completamente o que estava acontecendo, ele acariciava as minhas coxas.
– Tenho planos para você: um grande espetáculo – ele disse, com as mãos agora mais em cima, tentando abrir a minha braguilha. – Estou formando o elenco agora. Acho você perfeito para um dos papéis mais importantes.
Eu não sabia se batia nele ou sentia pena, mas pensei: "Bem, não é tão mal assim, se for verdade. "Ziembinski continuou com suas investidas, agora falando obscenidades de forma alucinada e excitadíssima. Eu o pressionei para saber detalhes do espetáculo.
– É um bom papel, mesmo?
– Claro, garoto. Você vai amar.
Ele continuava me agarrando, agora de forma mais atrevida. Tentou separar meus joelhos, mas não me movi. Eu tinha uma ereção, consequência das fotos nas revistas, e provavelmente Ziembinski percebia o volume sob minhas calçadas, mas estava entendendo mal. Ainda assim, deixei-o continuar por mais tempo do que deveria, avaliando o que eu teria que dar e o que receberia em troca. "Que mal haverá nisso?", pensei: Mesmo que eu o deixasse ir até o fim, isso não faria de mim um pervertido. Seria só mais um garoto a ceder para um diretor viado do Rio de Janeiro, em troca de um papel. Havia maneiras piores de vender a alma.
Retomando a minha lucidez, afastei qualquer idéia de aquiescer aos avanços de Ziembinski. Eu poderia estar disposto a sofrer pela arte, a ir em frente, mas não daquele jeito. Levantei-me para ir embora.
– Onde você vai? – a mona perguntou.
– Tenho uma garota esperando por mim – eu disse, pensando que assim ele desistiria. – Preciso mesmo ir embora!
– Todos nós temos garotas, bobinho. E garotos, também. Isso não é motivo para ir embora, me deixando na mão.
Ele agarrou-me como um alucinado, inteiramente nu, a visão do inferno ou algo parecido. Empurrei-o e corri em direção à porta, mas Ziembinski veio gritando atrás de mim, ensandecido:
– Você nunca será ator! Nunca será nada! Você não tem classe!
Chegando à rua, os gritos dele me atingiram através da janela aberta:
– Não se esqueça. A vida é duas montanhas sem nenhum vale no meio!
Não entendi nada. Acho que a bichona polonesa estava delirando. Pouco tempo depois, sem ressentimentos, nos tornamos bons amigos. Mas, infelizmente – ou felizmente – nunca fui dirigido por ele, que era um diretor extraordinário!
(Extraído do meu livro de memórias inédito, "Um Estanciano Arteiro no Rio de Janeiro).
Escolha certa e inteligente
Está de parabéns quem teve a feliz e inteligente ideia de convidar Amorosa para fazer parte da nova equipe da antiga Funcaju, agora voltando às suas verdadeiras origens, como Secretaria de Cultura, acrescida de "Eventos". A cantora, com mais de um quarto de século de carreira, vai ocupar o importante cargo de Coordenadora de Cultura, que, como o nome já diz é responsável pela engrenagem da máquina de modo a atender aos interesses daqueles que fomentam eventos culturais (não confundir com megaeventos tipo Forrocaju) verdadeiramente dignificantes, matéria-prima da transfiguração a estabelecer relações outras, indefiníveis porque intemporais e anímicas.
Amorosa tem garra, obstinação e preparo intelectual para exercer suas funções com rigor e tenacidade, ouvindo seus colegas artistas dos mais variados segmentos, para assim detectar as necessidades e preferências do público consumidor de cultura e arte, adequando projetos e situações que as atendam e abasteçam. Ela sabe que um meio de comunicação de estrutura industrial em sociedade de mercado, produzindo em série, pode sempre contar com a resposta quase instantânea, já que é portador de uma nova dialética em seus processos de comunicação.
Em recente entrevista, Amorosa disse ter recebido o convite com muita alegria, estando disposta a servir à classe artística e cultural de Aracaju, cidade que ama de paixão.
A artista está no auge de sua maturidade, conseguindo assim realizar os seus grandes sonhos, representando ideais ou obtendo as condições para o trabalho pretendido. Ela encontra-se num patamar onde o trivial é a expressão do seu melhor sem qualquer esforço extraordinário.
Amorosa é, em síntese, um marco da nova mulher.
Geleia Geral
… Já não era sem tempo: a Funcaju, que praticamente só existia no papel, tal a sua inoperância, cede lugar a uma Secretaria Municipal de Cultura. Ideia do novo prefeito João Alves Filho, que precisa também, urgentemente, pensar na construção do nosso Teatro Municipal. E concretizar.
… Começou o novo "Big Broxa Brasil", o programa mais instrutivo da televisão brasileira. Nele se aprende de tudo, inclusive como viver no sedentarismo e no faz que rola-mas-não-rola debaixo ou por cima dos edredons…
… E o Pedro Bial, hein? Novamente no comando do reality show dos desocupados de plantão, faz papel de bobo, pedindo a todo mundo pra dar "uma espiadinha". E viva o voyeurismo global!
… O Encontro Cultural de Laranjeiras aconteceu neste ano da graça de 2013 e quase ninguém viu. Há muito tempo deixou de ser um evento cultural de relevante importância, transformando-se numa quermesse de Reis…
… O ator Márcio Garcia parece ter desistido da sua carreira de ator, passando a investir na de diretor. E de âmbito internacional. Até que ele leva jeito para a coisa, a julgar pelo filme "Amor Por Acaso", disponível em DVD. No longa estrelado por Juliana Paes, entre outros, o ator americano Dean Cain.
Flores
"Pelos campos, há fome / Em grandes plantações / Pelas ruas marchando / Indecisos cordões / Inda fazem da flor / Seu mais forte refrão / E acreditam nas flores / Vencendo o canhão". – Geraldo Vandré em "Pra não dizer que não falei de flores (caminhando)".


