Com o dedo na ferida

As cadeias brasileiras não são lugar de gente. Além das condições insalubres impostas aos custodiados, os problemas que dão na vista de qualquer pessoa com dois olhos perfeitos no rosto, a exemplo da superlotação, há ainda o silêncio institucional que pesa sobre a prática da tortura. Ninguém fala, mas todo mundo já ouviu dizer.

No Brasil, a tortura é rotina desde sempre. Os índios catequizados por jesuítas cheios de boas intenções bem o sabem. Os negros sangrando no pelourinho também. Já virou até verso de canção. Todo camburão tem um pouco de navio negreiro.

A recente posse de nove peritos do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, subordinado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, talvez seja a primeira iniciativa de Estado a ensaiar uma ofensiva contra método tão torpe. O desafio desproporcional imposto aos homens, contudo, sugere o exercício de uma função meramente ilustrativa, sem qualquer possibilidade de consequência efetiva.

Os peritos foram escolhidos em seleção pública e terão mandato de dois a quatro anos. Em tese, terão aceso livre a qualquer espaço institucional, público ou privado, em que entendam haver ameaças contra a integridade física de custodiados. Com larga experiência militando em movimentos de rede contra a tortura, não esperam encontrar portas abertas. Os agentes públicos estatais violadores dos direitos humanos são a pedra no seu sapato.

O diagnóstico é quase sempre o primeiro passo para dar fim a uma doença. O Brasil acerta ao empossar os peritos, ainda que sob pressão realizada pela Organização das Nações Unidas e tardiamente. Espera-se, agora, que tenha a coragem de colocar o dedo na ferida.

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