Semana Santa

* Raymundo Mello

No período de 29 de março a 04 de abril corrente, os cristãos católicos do mundo inteiro revivem piedosamente a última semana da vida humana de Jesus Cristo, o Mestre, filho unigênito de Deus, a eterna figura que dividiu o tempo na história – AC/DC – antes de Cristo e depois de Cristo; uma vida simples, porém ativa, cultuando a verdade, o amor integral e a esperança, que se condensam numa grande aventura que se chama FÉ. Felizes os que a cultivam.

Na Arquidiocese de Aracaju, essa vivência intensa é celebrada em todas as paróquias, havendo atos especiais celebrados na igreja mãe, a Catedral Metropolitana (Missa dos Santos Óleos e pregação própria). Da Missa de Ramos à Missa de Aleluia, realizam-se solenemente a Celebração das Sete Dores de Maria (mãe de Jesus), atos penitenciais, Via-Sacra, Missa dos Santos Óleos e do Lava-pés, Celebração da Paixão de Cristo, Sermão das Sete Palavras e, finalmente, a Vigília Pascal e a Missa de Aleluia. No domingo (05/04), Missas diversas celebram a Ressurreição de Cristo, triunfo de Jesus sobre a morte, resumo da Fé Cristã Libertadora. Tem-se, assim, uma semana de atos religiosos solenes, com 2015 anos ininterruptos de celebrações que permanecerão ‘ad perpetuam’ em todo o mundo, mesmo naqueles locais onde os cristãos ainda sofrem perseguições (desde os primeiros tempos quando realizavam o "partir o Pão" nas catacumbas). E assim será, sempre.

Essas celebrações, hoje em dia, mantêm a solenidade, mas em tempos novos, implantados desde o Concílio Vaticano II, sopro especial do Espírito Santo sobre a Igreja. Até então (1962), poucos entendiam de fato as leituras feitas pelas autoridades religiosas, em Latim. Felizmente, as homilias esclareciam em parte, especialmente para os jovens que frequentavam os atos litúrgicos, o que se proclamava. Hoje, até mesmo leigos com vivência cristã transmitem as mensagens que foram escritas por inspiração divina. Lembro-me que alguns católicos tinham um Missal onde as orações e leituras bíblicas de cada ato eram impressas em Latim na metade da folha, e em Português, na outra metade. Minha madrinha, Professora Eulália Macedo, tinha um Missal e quando me levava para a Missa Dominical fazia questão que eu lesse a parte em Português; eu fazia essas leituras, porém, com regular atraso – não dava para acompanhar a ágil leitura dos padres e ela ia me mostrando com a ponta do dedo onde já estava a leitura; eu, às vezes, saltava alguns parágrafos para alcançar. Foi muito válido para minha formação religiosa o apoio de minha madrinha – Deo Gracias!

A semana santa nos meus tempos de jovem estudante do Educandário Jackson de Figueiredo tinha um sabor especial (anos 40 do século passado). É que, àquela época, toda semana santa os colégios fechavam as portas (do domingo de Ramos ao domingo da Ressurreição) e tínhamos todos uma semana de folga. Aracaju tinha uma gama de estabelecimentos de ensino com internato – Colégio das Freiras (Nossa Senhora de Lourdes e Patrocínio São José), Colégio Salesiano, Colégio Tobias Barreto e Colégio Jackson de Figueiredo, e esses alunos e alunas internos/as eram liberados/as. A maioria corria para a casa de seus pais, no interior do estado (alguns em Alagoas e na Bahia), entre eles, João Gilberto, hoje, famoso no mundo inteiro como compositor, músico e intérprete da Bossa Nova. Ele era aficcionado em música, em violão (aprendeu a tocar aqui em Aracaju, com o violonista Carnera), gostava de cantar as canções de Orlando Silva, seu ídolo, e, certa vez, em entrevista a Fernando Faro (laranjeirense radicado em São Paulo, produtor musical da TV Cultura), disse que João Mello, daqui de Sergipe, era o melhor cantor que ele conhecera – naturalmente, na época em que ele residiu e estudou aqui em Aracaju. Seus amigos mais próximos, de então, eram os irmãos José e Aécio Dantas e Silvio Sobral, companheiros e colegas de farras e brincadeiras, mas o especial amigo deles, segundo dizia, era Salvador, zeloso funcionário do Jackson, que facilitava as saídas e retornos deles três, internos, que escapavam para as incursões noturnas.

Mas, voltando ao assunto, as celebrações dos atos da semana santa mereciam a devoção e o respeito de todos, especialmente de homens de negócio, autoridades e profissionais liberais, que faziam questão de participar da maioria deles, com esposa e filhos. Entre eles, havia aqueles que no período de 5.ª a domingo afastavam-se dos seus "pecados da carne" e comentavam entre si: "4.ª feira vou fechar o balaio. Você já fechou o balaio?" etc… Enquanto isso, nós, jovens, de 10 pra 11 anos, ingenuamente, fazíamos essa mesma pergunta uns aos outros: "Fulano, já fechou o balaio? Eu não, e você?". Pura ingenuidade. Mas, tenho certeza que éramos perdoados, pois o nosso balaio era imaginário. E, como disse Jesus, "Eles não sabem o que falam". Amém!

* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

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