Acontecerá nesta segunda-feira, às 9h (horário de Aracaju), uma teleconferência entre técnicos e dirigentes da Agência Nacional de Águas (ANA), do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf). Eles vão reavaliar a situação do nível das águas do Rio São Francisco e das barragens das usinas hidrelétricas instaladas em seu curso, como Sobradinho e Paulo Afonso (BA), Três Marias (MG) e Xingó (SE/AL).
Inicialmente, será debatida uma possível redução da vazão da barragem de Sobradinho, dos atuais 800 metros cúbicos por segundo (m³/s) para 500 m³/s. Tal medida chegou a ser debatida na última teleconferência realizada pelos órgãos, em 18 de janeiro, quando parte dos técnicos avaliou a redução como necessária para evitar o uso do chamado ‘volume morto’ do reservatório. Por causa da estiagem que castiga o Nordeste desde 2012, a situação de Sobradinho é tida como muito grave: no dia 16, as águas da barragem ocupavam apenas 2,5% do volume útil – o pior desde novembro de 2001, quando aconteceu o último racionamento nacional de energia elétrica. No entanto, a queda drástica da vazão pode ser simplesmente descartada pelos órgãos.
Fortes chuvas – Esta reviravolta é instigada pelas fortes chuvas ocorridas ao longo da última semana nas regiões cortadas pelo Velho Chico, como o Centro-Oeste mineiro, o Oeste baiano e até o Sertão sergipano, onde estradas e pontes chegaram a ser danificadas pelas águas. A imprensa destas regiões relata que as chuvas atingiram o nível de 200 milímetros, o que fez o nível das águas do São Francisco começar a subir em 72 horas. Em Minas, a nascente do rio se recuperou da seca recente e a vazão já está em 3500 m³/segundo, enquanto a Bahia registrou 1500 m³/segundo. A Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) já prevê que, nos próximos 35 dias, a vazão pode alcançar o triplo da situação atual.
Apesar do iminente alívio na situação de seca, os técnicos que acompanham o Velho Chico ainda não se despreocuparam com o baixo nível do rio, nem com o comprometimento das hidrelétricas. De acordo com o Operador Nacional do Sistema (ONS), os reservatórios da Região Nordeste ainda guardam 8,1% de sua capacidade máxima, contra 39,1% das regiões Sudeste e Centro-Oeste, 19,4% do Norte e 95% do Sul. A disparada das chuvas – que também acontece na Amazônia – ainda não é suficiente para desligar as usinas termelétricas que ajudam a suprir a demanda de energia elétrica, apesar do altíssimo custo. Atualmente, as termelétricas hoje ligadas geram cerca de 14 mil megawatts médios de energia.
O Ministério de Minas e Energia diz que não há previsão de religar as termelétricas mais caras no Nordeste por causa da falta de água nos reservatórios. "Essas térmicas mais caras continuarão sendo usadas apenas para os seus objetivos originais: de fortalecer o sistema eventualmente, em horários de pico; de substituir outras térmicas em manutenção; ou compensar alguma restrição elétrica que dificulte o abastecimento de outras fontes", informa a pasta. Já o presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales, avalia que a energia das termelétricas deverá continuar sendo usada pelo menos até abril, quando termina o período mais chuvoso no país, para que se possa para avaliar as condições dos reservatórios das hidrelétricas e decidir sobre a possibilidade do desligamento. "Aí então se terá segurança para poder, eventualmente, promover o desligamento parcial dessas usinas", diz.
A experiência da estiagem recente leva o CBHSF a propor o estudo de novas alternativas que garantam a sobrevivência do rio e apontou para a necessidade da restrição de outorgas. "Se, no decorrer de 2016 a situação hidrometeorológica chegar aos piores extremos, o que não é o cenário mais provável, será preciso encontrar novas alternativas, tais como restrição de outorgas, para dividir o peso desses impactos e evitar vazões de volume tão degradantes para um ecossistema já estressado além do limite", considera o presidente do comitê, Anivaldo Miranda, que pediu acesso às análises da Chesf para discussão com os especialistas da entidade. (edição de Gabriel Damásio, com Agência Brasil)


