Incêndio na Câmara de Cristinápolis não impede cassação

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

A crise política em Cristinápolis (Sul) ganhou contornos policiais na madrugada de ontem. A Câmara de Vereadores do município foi totalmente destruída por um incêndio, iniciado por volta da 1h30, horas antes da sessão extraordinária marcada para votar o pedido de cassação do atual prefeito da cidade, padre Raimundo da Silva Leal (PMDB). Segundo as primeiras informações, desconhecidos quebraram a porta de vidro da entrada principal, arremessando uma pedra de aproximadamente seis quilos. Em seguida, espalharam várias garrafas de combustível por todo o prédio e atearam fogo. Soldados do quartel do Corpo de Bombeiros em Estância foram enviados à cidade e conseguiram apagar as chamas após cerca de uma hora de combate.

Segundo o vereador José Dantas de Santana, presidente da Câmara de Cristinápolis, o fogo arrasou boa parte da sede do Legislativo e destruiu praticamente todos os documentos que estavam guardados nas salas da Presidência e do Arquivo Legislativo. Inicialmente, chegou-se a informar que ali estavam os papéis relativos à Comissão Processante que atuou desde novembro de 2015 e investigou as denúncias de corrupção e outras irregularidades que teriam sido praticadas na gestão de Raimundo Leal.  
"Toda a documentação foi queimada, porque a intenção era destruir provas documentais. Eu entendo desta forma e não existe outra linha de raciocínio, diante das evidências. Não tenho dúvida de que essa reação foi por conta de todo esse processo de impeachment", suspeitou Dantas. Mais tarde, outros vereadores que integraram a Comissão Processante confirmaram ao presidente que os papeis da investigação, nas quais estariam provas contrárias ao prefeito, foram guardadas em outro local da cidade, não revelado. O delegado de polícia de Cristinápolis, Paulo Cristiano Ricarte, confirmou também que os documentos da comissão já tinham sido retirados da Câmara "por cautela".

O presidente relatou também que o plenário da Casa é o único compartimento que não foi queimado, devido à ação dos Bombeiros. No entanto, ainda na manhã de ontem, era muito forte o cheiro de gasolina e de álcool no plenário, o que reforça ainda mais a tese de incêndio criminoso. Ao amanhecer, muitos moradores da cidade foram até a Câmara e ficaram chocados com os escombros do imóvel, que teve o telhado e parte da estrutura avariadas. "Fica um sentimento de revolta, de tristeza. Chega a ser emocionante ver a forma como o prédio ficou destruído. As pessoas até choraram diante do local, porque é um patrimônio público que foi atacado", lamentou Dantas.

Equipes da Polícia Civil e do Instituto de Criminalística chegaram no começo da manhã à Cristinápolis e começaram a investigação com uma perícia nos escombros do prédio e o levantamento de testemunhas que podem ter visto a invasão. O vigilante que estava de plantão na hora do ataque prestou depoimento à polícia no fim da manhã. O delegado local confirmou que a principal linha de investigação é a do incêndio criminoso e atribuiu o episódio ao "clima muito tumultuado" vivido hoje na cidade. "Já tivemos um episódio anterior, uma tentativa de invasão à Câmara de Vereadores, por ocasião de uma das sessões que votaram o processo de impeachment. O que aconteceu nesta madrugada não foi uma mera coincidência. Nós acreditamos que tem relação com o andamento deste processo", disse Cristiano.

O delegado disse que já pediu os laudos da Criminalística e dos Bombeiros sobre as causas e os materiais do incêndio. O paralelepípedo atirado contra a porta da Câmara foi apreendido e também será analisado. Os policiais constataram que os documentos presentes no arquivo foram espalhados e destruídos pelo fogo, o que, de acordo com o delegado, reforça ainda mais a hipótese de que o incêndio foi premeditado.
Ricarte confirmou ainda que, além do depoimento do vigilante da Câmara, a polícia conseguiu imagens do circuito interno de TV de uma agência do Banese que fica ao lado do imóvel incendiado. "Com base na análise destas imagens, podemos ter novidades ainda hoje", garantiu. Sobre a indicação de suspeitos, o delegado não confirmou nomes, mas afirma que todas as hipóteses levantadas serão investigadas à exaustão, independente dos grupos políticos envolvidos na crise.

Prefeito cassado – A sessão que votou o pedido de cassação do prefeito Raimundo Leal no próprio plenário da Câmara de Cristinápolis e começou por volta das 14h, com a segurança reforçada por mais de 20 soldados da Polícia Militar. Depois de mais de cinco horas de debates, o impeachment foi aprovado com os votos dos sete vereadores da bancada de oposição. Os dois vereadores que apoiam o prefeito discordaram da tramitação do pedido e se retiraram do plenário. O vice-prefeito João Dantas dos Santos (PSC) é o substituto e tomou posse da Prefeitura no começo da noite. (Leia mais na coluna de Rita Oliveira)

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