Não são poucos os autores, clássicos até, que escreveram sobre os perigos representados por amantes circunstanciais, ou, pior ainda, as que por longo tempo frequentam as camas dos poderosos.
FHC, o nosso ex-presidente, refinado intelectual, ledor de uma enormidade de livros, talvez tenha cometido o equívoco de imaginar que o seu charme de sedutor, aliado aos efeitos afrodisíacos que emanam do poder, seriam suficientes para o contentamento, ao longo da vida, de uma amante a quem ele cumulou de presentes e favores que ainda mais poderiam perenizar o fascínio que sobre ela imaginou, equivocadamente, exercer.
Acontece que a sua amante era jornalista buliçosamente curiosa, e também uma mau caráter cerebralmente capaz de cometer abjetas sacanagens, fora da cama, naturalmente.
Se houvesse prestado mais atenção a alguns trechos, saborosos até, no volumoso e atraente cartapácio que é a Comédia Humana de Honoré de Balzac (fascínio aqui do escrevinhador), o ex-presidente estaria mais prevenido contra essas felonias de boquirrotas amantes que, repentinamente, se tornam inimigas e cospem na mesa onde fartamente comeram.
Não há como resistir, porém, aos sutis encantos de quem é ótima na cama e sabe camuflar, sob os lençóis, a ruindade que a nudez não revela.
O ex-presidente agora é o alvo da gozação nacional. O mordaz e copiosamente criativo humorista José Simão já encontrou outro significado para a sigla FHC: Fui Homem Chifrudo.
A revelação de que o filho do ex-presidente com a jornalista na realidade não é dele, seria nada mais do que um simples acidente de percurso nessas relações descontraídas e sem exigências de exclusividade, onde a figura antiga do triângulo amoroso, por ter apenas três vértices, é insuficiente para caracterizá-las.
Homem de muitas mulheres, amadurecido e com ampla expertise no assunto, FHC deve ter relevado e nem sequer dado importância ao fato. Para outros, que não ele, anacronicamente dominados pela ideia de que a honra pessoal transita entre falos e vaginas, o caso seria motivo suficiente para que a ¨honra ofendida ¨ fosse lavada com sangue. FHC, civilizada e cavalheirescamente, continuou ajudando a ex-amante a criar o filho sobre o qual tivera, antes, uma putativa paternidade (sem direito a trocadilhos infames).
Mas nesse caso é que a porca torce o rabo.
As ajudas, aliás, substanciais, teriam, segundo a jornalista, sido feitas através de uma empresa de Free Shop. Para o humorista José Simão, melhor seria se fosse por uma empresa de Sex Shop.
Haveria, ainda, a utilização de contas internacionais para abastecer a amante com o aporte mensal de três mil dólares. A Rede Globo tão bem relacionada com o ex-presidente também presenteou a jornalista com o cargo de correspondente internacional, baseada na fascinante Barcelona. Talvez por isso, precavidamente protegendo-se de possíveis indiscrições, o apresentador William Bonner caprichou na impostação da voz para dizer que Mirian Dutra sempre foi uma funcionária competente e ética. Nenhuma suposição de que os poderosos bilionários irmãos Marinho teriam sido assim, uma espécie de alcoviteiros.
De tudo o que aconteceu, embora a revelação dos episódios burlescos esteja marcada pela felonia de uma senhora sem nenhum caráter, fica a evidência de que nessa nossa República nada republicana, até os seus mais sisudos condestáveis costumam mergulhar no mar das promiscuidades.


