Gabriel Damásio
Cerca de três horas de tensão foram vividas na manhã de ontem em Simão Dias (Centro-Sul), onde um servidor da Secretaria Municipal de Ação Social foi tomado como refém e ameaçado de morte por um homem em possível surto psicológico. O incidente começou por volta das 8h30, quando a sede da repartição foi invadida, e terminou pelas 11h50, depois que um atirador de elite do Comando de Operações Especiais (COE) acertou dois disparos contra o agressor, identificado como Gilvan dos Santos, 37 anos, que morreu. O refém conseguiu se libertar de seu captor e foi atendido ao pronto-socorro da Casa de Saúde Pedro Valadares, com cortes na mão e no pescoço. Apesar dos ferimentos, ele passa bem e já recebeu alta.
Todo o cerco da polícia aconteceu na Praça do Cemitério, no centro de Simão Dias, onde fica a Secretaria de Ação Social e as sedes de outras repartições do município. Segundo o major Matheus Soares, comandante da 2ª Companhia do 7º Batalhão de Polícia Militar (2ª Cia/7º BPM), Gilvan esteve na secretaria para pedir sua inscrição em um benefício social, mas surtou depois de ouvir a negativa do funcionário. No entanto, em entrevista à rádio Ilha FM, uma servidora da Prefeitura que trabalha com as vítimas deu outra versão afirmando que ele não foi buscar nenhum benefício, mas alegava que queria se vingar de um estupro atribuído a ele em um abrigo que funcionava na atual sede da Ação Social. Esta acusação ainda é investigada pela Delegacia de Polícia de Simão Dias.
Conforme os relatos da polícia e das testemunhas, o homem saiu por um corredor, se armou com uma faca peixeira de aproximadamente 10 centímetros de largura e agarrou um funcionário do setor financeiro, que foi dominado pelo pescoço. Testemunhas relataram que o primeiro refém reagiu à abordagem e acabou ferido com um leve corte no pescoço. Outro servidor, que é o coordenador local do programa Bolsa-Família, tentou conversar com Gilvan, mas acabou rendido por ele e levado para a porta da repartição, onde os dois permaneceram até o fim da manhã. Os outros funcionários se trancaram em uma sala e chamaram a Guarda Municipal, que também avisou da ocorrência à Polícia Militar.
Ao todo, a área foi isolada por 30 policiais, incluindo os do 7º BPM e da Delegacia, que chegaram primeiro ao local. Cerca de uma hora depois, chegaram de Aracaju os reforços do COE e do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope). Dois delegados e dois oficiais da PM assumiram a negociação, descrita como confusa e muito tensa. O major Matheus confirmou que o autor do seqüestro demonstrava sinais de transtorno e passava por problemas psicológicos recentes. “Ele não estava em condições normais. Tinha um histórico de agressões familiares, estava passando por alguns problemas e, naquela manhã, ele surtou. Enquanto estava com o refém, balbuciava várias coisas de maneira desconexa, dizendo até que estava com alguns benefícios cortados”, disse ele.
Durante as negociações, Gilvan fez muitas exigências aos policiais, mas, de acordo com o comandante, não tinha um objetivo definido. “Ele pediu água, pediu suco, pediu lanche, pediu a presença da família, um amigo e até um padre foram pra lá, tentaram convencê-lo a se entregar”, relata Matheus. No final da manhã, o comando da operação decidiu posicionar o atirador de elite do COE e aguardar um melhor momento para a chamada ‘neutralização’ do captor. Foi o que aconteceu, quando o coordenador segurou o braço de Gilvan e conseguiu se desvencilhar dele. Ao correr atrás da vítima, ele foi atingido pelos tiros e morreu a caminho do pronto-socorro.
A avaliação da polícia é de que a instabilidade emocional do agressor colocou a vida do servidor em risco. “Tivemos que preservar a vida do refém. Não foi uma decisão única. Mesmo adotando a estratégia de vencer o rapaz pelo cansaço, nós avaliamos que a negociação não ia avançar, porque não estávamos lidando com uma pessoa em condições normais. Por mais que a gente atendesse a todas as exigências, que déssemos tudo o que ele queria, ele poderia a qualquer momento mudar de idéia e matar o refém. Ele empurrava a faca no pescoço da vítima a todo o momento e não a tirou um só instante. Decidimos agir porque nós podíamos perder um cidadão de bem, trabalhador, que estava sendo ameaçado”, esclarece o major.
Durante o resto do dia, a sede da Secretaria de Ação Social ficou interditada e passou por uma perícia dos institutos Médico-Legal (IML) e de Criminalística. O local foi liberado no fim da tarde. Os servidores foram dispensados do expediente e prestaram depoimento na Delegacia de Simão Dias, juntamente com familiares das vítimas e do autor do seqüestro. O corpo de Gilvan foi enviado para exames no IML de Aracaju e deve ser sepultado hoje em Simão Dias. Ele era separado, deixa um filho e, de acordo com a polícia, já respondeu a um processo por homicídio, mas foi absolvido da acusação por falta de provas.


