O DIA DA MULHER É O DIA EM QUE HOUVER JUSTIÇA

Vânia Azevedo

Quando penso em guerras, logo temo pelas pessoas (especialmente as mulheres) que são vítimas fáceis de soldados inimigos, que nessas ocasiões deixam emergir o seu lado primitivo esádico, trazendo à baila o que de mais desprezível pode se ver no ser humano: a crueldade.
Utilizando-se da condição de fragilidade e miserabilidade dos sobreviventes, nem sempre precisam de armas para destruir o que sobra de dignidade naqueles que o poderio bélico não alcançou. Mas são as mulheres, as vítimas que líderes diabólicos reservam como troféu aos seus soldados, que se deleitam com o desespero das famílias – incapazes de preservar suas mulheres do oportunismo assassino de farda – não satisfeitos com o grau de destruição de cidades, famílias e sonhos.
Sempre acreditei que essa era uma situação reservada ao universo militar, que une o desvio de caráter às atrocidades da empreitada. Até que ouvi o áudio do deputado estadual por São Paulo, Arthur do Val, inflado de declarações machistas e misóginas. Nos áudiosem que ele atualizava os amigos sobre asua aviltante missãona Ucrânia, nos fornece um Raio X transparente do seu caráter desprezível, que afronta não apenas às mulheres ucranianas, mas a todas as mulheres do mundo. Quando se dispõe a viajar a um país em guerra (aproveitando-se do momento de dor e fragilidade das pessoas para deixar aflorar o seu lado pervertido), o depravado deputado mergulha sem reservas na profundidade da podridão de sua essência. Mas é quando afirma que “são fáceis, porque elas são pobres”, que ele emerge do submundo da sua pequinês e revela o cafajeste que é.
Vindo de um parlamentar é mais desolador porque sabemos que esse é apenasum,entre tantos outros, que merecem ser desmascarados. É um representante do povo, eleito com expressiva votação, para finalmente deixar cair a máscara hedionda de seu caráter. E o que dizer daqueles a quem cabe criar leis mais contundentes para coibir a avalanche de casos de feminicídio que tomou conta do país e nada fazem? E da justiça,que detém o poder da palavra, mas sucumbe na veleidade das punições aos crimes de feminicídio (hoje tão incontrolável quanto estouro de boiada)?
Quando se aproxima o dia 8 de março, vejo que nada temos a comemorar no dia internacional da mulher. Quando vemos a tolerância como vem sendo tratado os casos de feminicídio, fica mais fácil entendera razão dessa explosão de atitudes machistas que vem dizimando diariamente as mulheres desse país. Recusar-se a dar continuidade a uma relação amorosa é passivo da pena de morte imputada pelos seus algozes, que matam e seguem à sombra da impunidade. A sensação que experimentamos é que tornar-se números nas estatísticas de feminicídio tornou-se lugar comum, até que as mulheres finalmente assumam o lugar que hoje é ocupado por homens que ainda fazem as leis pensando primeiro neles.
A guerra que enfrentam as mulheres que vivem sob o domínio de homens de mente doentia (machistas misóginoscomo Arthur do Val, ‘MamãeFalei’, é diária, e o mundo não vê (senão suas trágicas consequências), porque a hipocrisia anda lado a lado com esses falsos amantes.
As flores que adornam os túmulos de nada servem. Mulheres não precisam de flores, até porque elas são mais belas quando nos jardins. O dia em que finalmente as mulheres poderão comemorar o seu dia, aconteceráquando elas deixarem de ser humilhadas e ridicularizadas nos tribunais; destratadas por juízesmachistas e advogados mercenários, que por vezes facilitam a vida de seus pares ao transformar a vítima em réu, esquecendo que um dia a vítima pode ser a filha de um deles.
As mulheres precisam de respeito, de oportunidades, de solidariedade, de empenho dos governantes para não transformar o feminicídio do Brasil em mensagem tão popular quanto os cartéis que popularizaram o México.

Vânia Azevedo é professora.

Compartilhe esta notícia