O limiar do gesto

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

A cada nova declaração do presidente Jair Bolsonaro, a sombra do arbítrio ganha volume e se projeta sobre a cabeça dos brasileiros, mais densa. O sujeito é um tarado, jamais fez segredo dos sonhos molhados inspirados pelo torturador Carlos Brilhante Ustra. Adestrado por tal sorte de afeto, ele fantasia dia e noite com o rebaixamento da República em uma autocracia vulgar, faz planos delirantes em conluio com dois ou três generais de pijama.
Sim, os afetos sempre guardam o embrião de um gesto. Alguém com a ‘Ilíada’ embaixo do braço, por exemplo, pode até não cometer versos, tolhido por agudo senso crítico, mas certamente cultiva um mundo inteiro de palavras, em prateleiras abarrotadas de livros. Bolsonaro, ao contrário, esbirro de uma brutalidade canhestra, gosta de empunhar armas e de se equilibrar sobre máquinas de muitos cavalos. Recorre, assim, ao triste consolo a disposição dos impotentes.
Bolsonaro é o próprio macho, cuspido e escarrado, desde a barriga de chope, até o vocabulário limitado. Enche a boca de palavrões, conta piadas sem um pingo de graça. Tosco, inculto, despreparado. Não admira, portanto, o pendor manifesto para o autoritarismo. Sem lampejo de inteligência no fundo da cachola, ignora o futuro enquanto distribui ofensas e pontapés, governa aos sopapos.
Neste dia 31 de março, uma data de triste memória, convém atentar para os afetos de Jair Bolsonaro – um presidente eleito capaz de celebrar um golpe de Estado.

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