Tributo ao monsenhor Victorino Corrêa Fontes (1862-1935)

* Carlos Modesto

O Monsenhor Victorino Corrêa Fontes o mais longevo pároco da nossa cidade nasceu na Estância em 1862, sendo seus progenitores o Sr. Joaquim Corrêa da Silva e sua exma. Esposa D. Maria Hermelinda Fontes da Silva.

Breves Notas Biográficas
Durante sua infância, revelou as mais acentuadas tendências para as funções eclesiásticas. Iniciou os seus estudos religiosos na Bahia, no Seminário Santa Tereza completou todo o curso superior. Aos 19 de março de 1888 recebeu em Pernambuco a ordenação sacerdotal, tendo cantado a sua primeira missa na capela do Rosário, na sua cidade natal, de onde seguiu com destino a cidade de Riachão de Jacuípe, na arquidiocese da Bahia, em cuja freguesia serviu como vigário pelo espaço de três anos, e da qual se ausentou em virtude de ter sido designado para substituir nesta paróquia o saudoso vigário Salustiano José da Silva Ayres.
Em recompensa à obra construtora do digno sacerdote, as altas autoridades eclesiásticas premiaram-no com os honrosos títulos de Conego Honorário da Sé Primacial da Bahia, depois Monsenhor Camareiro de Sua Santidade o Papa, Vigário forâneo do sul do Estado e Deão do Cabido Diocesano.
Organizador de várias confrarias religiosas desta cidade, como sejam o Apostolado da Oração, Pia União das Filhas de Maria, Associação das Almas, Ordem Terceira de São Francisco, Centro do Rosário Perpétuo, Irmandade de São Pedro e Associação da Oração de Maria. O Monsenhor Victorino Fontes revelou-se em sua brilhante trajetória um verdadeiro protetor dos desafortunados, fundando em 1907, ao lado do saudoso jornalista Augusto Gomes (fundador do jornal A Razão) e da exma. senhora, D. Laura Gomes Leite, o Asilo Santo Antônio, em cujo abrigo de caridade centenários de velhinhos têm encontrado os mais carinhosos cuidados durante os seus restantes dias de vida. Além de tudo isso foi um grande amigo da imprensa da nossa terra, à qual prestou ininterruptamente o maior incentivo, auxiliando-a moral ou intelectualmente.
A religião católica foi a única inspiradora de todos os seus atos, destinando-o sobretudo, a apregoar no seio das multidões, a palavra confortadora e meiga dos Evangelhos. E nesse mister, cheio de sublimidade e de beleza, quanto exuberante de renúncia e sacrifício, soube, cada vez mais, o saudoso ministro da Igreja interpretar os melhores exemplos, que equivalem para os que aproveitaram as lições e lhe cultivaram a memória, como o mais eloquente atestado de coragem, perseverança e fé.
A maneira dos destemidos bandeirantes de outrora, que levantavam em cada pedaço de terra desbravada a bandeira da civilização, Monsenhor Victorino Fontes, empunhando o símbolo da Cruz, soube erigir em cada ponto conquistado na mais extensa peregrinação cristã um monumento de fé, que deveria demarcar os limites para um mundo ideal com a fraternidade entre irmãos.

Funeral
Numa segunda-feira do dia 25 de março de 1935, após sofrer durante dois anos de uma implacável doença que atrofiou o seu vigor físico e obscureceu sua cognição o bondoso pároco deu adeus a vida. Por isso mesmo, sobre o túmulo em que descansavam, nesta hora, os restos mortais do ilustre e pranteado sacerdote conterrâneo, debruçaram-se, entre lágrimas e preces, o coração enternecido dos estancianos, cujo povo recebeu de suas mãos dadivosas, durante um período superior a quarenta anos, o prêmio dos melhores ensinamentos e o reflexo das mais purificadas virtudes.
O enterro do Monsenhor Victorino Fontes, o mais concorrido de quanto até aquela data havia se verificado na Estância, constituiu uma apoteose digna de registro. Cerca de 4.000 pessoas assistiram ao desfile do cortejo fúnebre, no qual tomaram parte toas as Irmandades religiosas da cidade, Grupo Escolar Gumercindo Bessa, além das duas filarmônicas locais, que executaram durante o trajeto percorrido pelo mesmo várias marchas fúnebres. A primeira encomendação do cadáver teve lugar na residência do extinto, tendo falado nesta ocasião o Cônego Serapião Machado. Repetiram-se os mesmos atos nas igrejas do Rosário, Amparo e Matriz, em cuja capela mor foi o mesmo sepultado. Durante esta última cerimônia falaram o Dr. Jessé Fontes, professor Antônio Ayres e o jovem confrade e meu amigo Frederico Camelier, que colocaram em merecida evidência a personalidade e a obra do ilustre mestre.
Todos os atos acima descritos tiveram a assistência espiritual dos Cônegos Antônio Freitas, zeloso vigário da paróquia, Cleminiano Freitas, Serapião Machado e Carlos Costa.
O comércio e as fábricas locais deixaram de funcionar durante a tarde do dia 26, tendo o cidadão João de Souza Sobrinho Júnior ordenado o fechamento de seu escritório comercial logo após ter sido divulgado o desenlace fatal, providenciando ao mesmo tempo que fosse realizado às suas expensas o funeral daquele digno sacerdote, seu parente e amigo.

Desaprovação
Não poderia antes de terminar esta homenagem ao Monsenhor Victorino Fontes, manifestar o meu repúdio pelo ato impensado de um jovem padre que quando veio prestar o seu sacerdócio na Catedral da nossa cidade nos anos finais do século passado, durante uma reforma na mesma mandou retirar os restos mortais do querido Monsenhor Victorino que jazia em sua tumba e ninguém sabe o que fizeram com eles. Na época censurei o ato através dos jornais da cidade, mas ninguém deu bolas ao meu grito escrito. Na verdade, foi uma heresia histórica apagar a memória de um religioso que serviu tão bem a igreja em favor do povo estanciano.

* Carlos Modesto é cineasta, memorialista, escritor, autor dos livros: Sombras da Saudade, A História dos Cinemas da Cidade de Estância; Contos da Escuridão, Judas na Praça; Um Duble de Médico no Mundo do Cinema; Oscar Santana, 60 anos fazendo Fita; Carlos Modesto Recorda: Com Mota, a Bahia Era Uma Festa.

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