Déda era um homem que amava os vinhos, os amigos, as boas conversas e os livros, mas que gostava, sobretudo, da velha e boa política, alguém que nasceu talhado para a vida pública, algo perto daquilo que chamamos de estadista
* Luciano Correia
Desde a morte de Marcelo Déda e durante todos os grandes momentos da vida política brasileira, a maioria no furacão de crises reais ou fabricadas, sempre me intrigou sondar o que estaria pensando, ou melhor, como estaria agindo esse jovem de inteligência admirável, morto aos 53 anos no dia 2 de dezembro de 2013 e que nesta quarta (11), seria um senhor de 66 anos.
De lá pra cá a qualidade da vida pública nacional se degradou em progressão geométrica, com a erosão de reputações e, principalmente, de talentos, e um governo fascista no meio.
Ninguém duvide que a simples presença de grandes negociadores da política, da linhagem de um Ulisses Guimarães, Leonel Brizola e do próprio Tancredo Neves, teria evitado chegar ao pântano em que nos metemos.
Déda, um retórico com estofo, grande leitor e conhecedor da História e da literatura, empregaria suas habilidades para pacificar os espíritos nacionais numa concertação que hoje parece difícil. Foi o único sergipano a percorrer os salões do poder em Brasília sem produzir o vexame típico dos provincianos.
Perto dele, só Lourival Fontes, o homem da propaganda e linha dura do Estado Novo, mas, justamente por isso, em situação vexaminosa para as grandes causas. O outro foi Joel Silveira, que frequentou os bastidores como jornalista dos principais veículos do país, mas também lateralmente.
Por fim, Gilberto Amado, deputado, embaixador, homem da política e da cultura. Só este alcançou a projeção que o simãodiense Marcelo Déda começava a desfrutar quando a morte lhe puxou o paletó. Grande lá fora, habilidoso aqui dentro, cumprindo uma carreira meteórica que o catapultou da Câmara dos Deputados para duas gestões na Prefeitura de Aracaju e outras duas no governo do Estado – todas, historicamente, obtidas em eleições de um turno só.
Marcelo Déda não só conquistou o poder, mas soube exercê-lo com parcimônia, brilho, charme e zelo ético. Isso não era um segredo de alcova para seu ninguém: Déda era um sedutor. Ofuscava opositores e atraía adversários pela capacidade de exercer a política como instrumento de mediação, uma coisa nova num Estado onde as oligarquias movimentam todos os poderes disponíveis, inclusive a violência policial de Estado, para inibir opositores, cassá-los e persegui-los.Déda era um homem que amava os vinhos, os amigos, as boas conversas e os livros, mas que gostava, sobretudo, da velha e boa política, alguém que nasceu talhado para a vida pública, algo perto daquilo que chamamos de estadista. Que não façamos dessas linhas uma ode cega ao político Marcelo Déda, também, como humano, demasiadamente humano, portador de virtudes e defeitos.
Paralelo à urbanidade que marcava sua figura, sabia valorizar cada abraço, cada aperto de mão. Nesse ponto, não se vendia barato, no sentido de dissolver-se em frases feitas e populismos forçados – embora, como todo sedutor, soubesse agradar. Mas tinha um temperamento forte, sabendo ser duro sem perder a ternura.
Eu mesmo briguei com ele e fiquei uns anos sem lhe dar um bom dia. Uma noite, na abertura de um festival de cinema, ele, governador, rompe minha roda de conversa, empurra os que me ouviam e brada no seu inconfundível timbre de barítono: “Luciano Correia, fale comigo, seu porra!” – este era Dedinha, como tratavam-no os mais próximos.
E retomamos ali uma relação que sempre foi de admiração e afeto recíproco. Nascido no 11 de março de 1960, ele era só um ano mais velho do que eu, mas parecia, pela vivência e cultura acumulada, muito mais velho. Foi isso que me chamou a atenção quando o conheci, eu entrando na UFS pra cursar Engenharia Química e ele secundarista do Atheneu, já metido com política estudantil e no movimento de cineclubes.
Não era só um cinéfilo afiado, mas fez cinema marginal entre o final dos 1970 e início dos 1980. Fiquei fascinado com aquele rapazote bonito, mais “atrasado” do que eu e tão na minha frente. Nutri por ele, por toda a vida, uma inveja positiva que até hoje perdura, mantendo viva sua verve intelectual, de leitor voraz e sensível. Ah, e do poeta que não deixou a desejar, nos legando postumamente o livro “Improvável poética”, que de improvável nada havia.
Com Déda travei longas e saborosas conversas sobre esses temas. Nunca esqueço de uma delas, discutindo “Danton, O Processo da Revolução”, de Andrzej Wajda, um primor de filme sobre a revolução francesa. Eu já tinha visto o filme e voltei a assisti-lo depois de ler um texto de Robert Darnton, historiador americano especialista em Revolução Francesa.
Ele, Déda, já conhecia o livro e, sobre o filme, me ofereceu uma análise espetacular, rica em detalhes, guardando falas, gestos e cacoetes dos atores, coisa de quem amava e entendia muito de cinema. Voltando às nossas “pazes”, logo que voltei de uma longa temporada no Rio Grande do Sul, fui convidado a participar do seu governo, para presidir a Fundação Aperipê, cargo que exerci, primeiramente, conferindo relevância, como se eu estivesse comandando uma Fundação Padre Anchieta, algo assim.
O convite não foi dele, mas do PC do B, que detinha este espaço no leque de alianças que compunha a gestão – para tristeza da minha mãe, que nunca entendeu não ter sido eu chamado em primeira hora pelo próprio Déda. A mim, isso não importou muito. Exerci o cargo com dignidade e, como disse, considerando a mais importante das funções públicas, realizando um trabalho que a modéstia não me impede de dizer que um dos mais importantes entre os gestores que passaram por aquela Fundação.
Mas durante aquele período, nos vimos pouco, nos falamos quase nada, contrariando uma histórica relação sempre marcada por muita alegria e festa. Sim: o poder também faz mal e talvez tenha feito ao meu amigo Marcelo Déda, quando, acuado por uma oposição virulenta e sequiosa na Assembleia, foi perdendo o viço e claramente sofreu com os embargos criados. Há quem defenda que do desgosto vindo daquela seara restou-lhe a doença. Não sei se tanto.
Se tivesse vida longa, seguramente Déda saltaria todas as fogueiras e teria sido eleito senador com folga e orgulho dos eleitores do pequenino Sergipe que teriam em Brasília um gigante da melhor política. Tanto que foi citado algumas vezes como eventual candidato a presidente da República pelo seu PT.
Mas a política, quando rasteira, pode fazer mal e atingir até os grandes guerreiros. Foi nessa quadra que apareceu a doença, sorrateira e silenciosa, que aos poucos foi tomando a força de um combatente valente, que lutou o quanto pôde, só entregando os pontos quando a saúde finalmente o impediu de governar.
Desses dias, tenho a lembrança de uma confissão feita a mim pelo seu ex-motorista. Disse que, já debilitado e quase na reta final num hospital em São Paulo, ele pedia para vir ao seu amado Sergipe para realizar um desejo simples, mas escolhido por ele para levar para a eternidade em sua memória imagética: a vista das praias da Sarney, com sua larga faixa de areia, águas rasas e, vá lá, às vezes azuis, um céu iluminado pelo sol mais belo do planeta. E eu, que passo todos os dias por essas mesmas praias no caminho de casa, lembro infalivelmente de sua devoção quase religiosa pelas belas paisagens, as imagens que a vida de um político com alma e rasgos de artista soube tão bem capturar.
* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS


