* Luciano Correia
A política sergipana já foi do “tempo dos coronéis”, época em que honra e disputas eram resolvidas na bala. Cheguei em Itabaiana ainda menino, numa cidade onde imperava um medo silencioso imposto pelo histórico de violência. Lembro do dia em que tivemos nossa aula no colégio Murilo Braga interrompida para a notícia da morte do taxista Pernambuco, numa praça pública em 1976, perpetrada pelo líder político Chico de Miguel.
Em 1963 ocorreram os célebres assassinatos dos deputados Euclides Paes Mendonça e seu filho Antônio Mendonça, pela polícia estadual, na mesma praça Fausto Cardoso. O crime absurdo gerou outro também bastante conhecido, a morte a tiros do deputado estadual Manoel Teles, na porta de sua residência, em 1967.
Hoje Itabaiana está pacificada, por vários motivos, mas, sem dúvidas, também pela linhagem de prefeitos e deputados que largaram as armas e foram disputar nas urnas. A única violência que persiste é a verbal, ainda herança do espírito coronelista de fazer política, mas, pelo menos, com menos derramamento de sangue e sofrimento das famílias.
Se sairmos do clima de urbanidade hoje reinante em Itabaiana para a esfera estadual, no entanto, parece que as velhas práticas oligárquicas e autoritárias ganham novas versões, atualizadas não mais naquela figura clássica do velho brutamontes fumando charuto e cuspindo agressões, mas no modelito do jovem-mauricinho-filho-de-papai brandindo insultos e ameaças.
Na semana passada, uma discussão sobre a atrasadíssima implantação do sistema de transporte na região metropolitana, protelado vergonhosamente por todas as gestões municipais, de Aracaju e municípios da região, foi combustível para dar mostras da falta de decoro por parte de alguém que, pela importância do cargo, deveria manter-se equidistante, magnânimo e digno. Mas não.
Sem fazer parte do consórcio, o governador Fábio Mitidieri se meteu na discussão, não para contribuir com alguma boa ideia ou buscar acalmar possíveis ânimos acirrados. Pelo contrário, acendeu o estopim de uma agressão gratuita e desrespeitosa à prefeita de Aracaju. Num post, repetido à exaustão por uma “imprensa” cada dia mais vergonhosa, o chefe do executivo estadual bradou, como um velho coronel: “Prefeita, me respeite. Se eu quisesse fazer política com a senhora, eu estaria fazendo, e a senhora não ia gostar”.
A fala ultrapassa todos os limites da disputa política civilizada entre opositores. Extrapola para a arrogância e carrega, aí sim, uma forte dose de misoginia. Mas a mesma imprensa alugada que inventa preconceitos nos adversários do governador silenciou escandalosamente na declaração agressiva de alguém que nem deveria estar no debate. A discussão é sobre um consórcio que deve pensar soluções de transporte a partir da capital, com seus mais de 600 mil habitantes.
Aracaju tem um histórico de organização desse sistema, num modelo que data ainda do governo de Heráclito Rollemberg, nos anos de 1970, quando trouxe para nossa capital os técnicos do antigo Geipot, uma estatal federal encarregada do planejamento das grandes cidades. Desprezar esse histórico de experiências e situar no mesmo patamar a quase total inexperiência dos municípios de São Cristóvão, Barra dos Coqueiros e Socorro, não é só burrice e má fé: é fazer política miúda e irresponsável com a população de Aracaju e, pela mesma inconsequência dos seus mentores, com as populações da região metropolitana.
Os prefeitos desses municípios, quando quiseram emperrar o processo de licitação do consórcio, fizeram política pura, sem olhar custos e consequências, só para atender à orientação do seu chefe político. O governador, achando pouco, se meteu num debate que não era dele. E pelo tom empregado para atacar a prefeita Emília, só faltou trazer de volta os tacapes e bordoadas.
* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS


