* Luciano Siqueira
Óbvio que o senador Flávio Bolsonaro (PL) sofre um tremendo tombo e muitas escoriações em sua pretensa pré-candidatura à presidência da República.
Quanto mais nega ou tenta enganar a propósito de suas relações promíscuas com o banqueiro presidiário Daniel Vorcaro, mais se enfraquece, amarga dissensões em sua base social e política – sistema financeiro, agro, grandes denominações evangélicas, extrema direita e centro conservador.
Natural que do lado de cá da ponta – o campo popular e progressista articulado em torno do presidente Lula – se explore o desastre do chamado filho 01 do ex-presidente encarcerado Bolsonaro.
Mas não está aí o leito principal do embate. É preciso avançar na afirmação das próprias proposições, sobretudo brandindo temas que a um só tempo nos distingue na extrema direita e contribui para a elevação do nível de consciência política do povo.
A afirmação da ética e o combate à corrupção – a experiência tem comprovado – têm a sua importância, mas não está aí o pomo da discórdia. Tampouco a exaltação dos feitos do governo no que tange a políticas sociais compensatórias: Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Pé de Meia etc. – que geram gratidão, mas não necessariamente consciência política.
É preciso relacioná-las com proposições de natureza estratégica – reformas estruturais, afirmação da soberania nacional – assim como a denúncia dos maiores inimigos da nação e do povo: a elite financeira, o agro exportador, os monopólios varejistas, o complexo midiático neoliberal dominante.
É possível num ambiente de correlação de forças muito difícil? Sim, tanto quanto necessário e indispensável.
Em outras palavras, o “economicismo” governamental não basta; é preciso demarcar campos e incutir consciência política e clareza de objetivos.
Isto a partir mesmo do discurso do presidente Lula e da contribuição própria do PCdoB e segmentos de esquerda mais avançados – seja na chamada campanha eleitoral corpo a corpo, no contato direto com os trabalhadores e o povo; seja no bom uso da comunicação digital.
E é perfeitamente possível combinar o exercício da unidade da frente ampla com a afirmação da marca própria de cada corrente política. Feito o óleo e a água: juntos, porém distinguíveis a olho nu.
* Luciano Siqueira, médico, membro do Comitê Central do PCdoB e secretário nacional de Relações Institucionais, Gestão e Políticas Públicas do partido, foi deputado estadual em Pernambuco e vice-prefeito do Recife.


