João de Agiu: A memória viva de Estância

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* Carlos Modesto
Falar do Sr. João de Agiu, é relembrar uma Estância rica de personalidades marcantes que nela viveram. Quando eu necessitava lembrar ou revisar qualquer assunto que escrevesse sobre o pretérito da nossa cidade, ia de imediato ao seu domicílio para tirar as dúvidas, que ele prazerosamente tirava, ajudando-me na matéria escrita. Ele possuía uma alma pura e generosa. O Sr. João, tornou-se meu grande amigo desde quando, depois de 40 anos ausente da minha querida cidade, voltei a visitá-la constantemente. O mais interessante de tudo isso era que, ele se lembrava bastante da minha infância vivida na Praça 7 de Setembro, na época em que morava com minha avó Julinha, dona de uma pensão e bodega anexa. Ele me contava detalhe por detalhe do que viu sobre a minha fase de menino, Ele possuía uma cognição privilegiada. Lembrou-me dos meus apelidos de infância, das “tapagens” (barreiras) que fazia no canto da rua no tempo em que a mesma era de barro, na época das chuvas, colocando os meus barquinhos de papel para flutuarem no lago artificial que fazia e ouvia os gritos da minha avó: “Saia já dessa chuva, Carlos”. As brigas que aconteciam na rua entre os meus tios Demétrio e Marcos, etc. etc.
O mais interessante sobre sua vida, é que essa personalidade benfazeja, que eu saiba, não possuía inimigo algum, mesmo vivendo numa época de arruaça política entre os partidos divergentes que dividiam a sociedade estanciana. De um lado o grupo da Direita se não me engano era a UDN, do Dr. Júlio Leite, Dr. Pedro Soares, Alfredo Silva jornalista fundador do semanário A Estância, Pedro Barreto Siqueira, Cunegundes Prudêncio de Mello, meu pai, o comerciante Josias Modesto entre outros. Do outro lado tinha o famoso deputado Francisco de Araújo Macedo (Nhozinho Macedo), esquerdista de mão de ferro, que lutava tenazmente pelo seu partido o PTB, e que tinha como aliado importante o semanário a Folha Trabalhista.  Ele, era casado com a Senhora Núbia Macedo, que foi prefeita da nossa cidade. Ela tinha uma grande amizade pelo João de Agiu.
Essa abnegada personalidade viveu nesse momento de inconstância política, entre a cruz e a espada, esse homem possuidor de uma característica tranquila era neutro em sua relação doutrinária, era respeitado por ambos os lados, tanto que trabalhou com Alfredo Silva em A Estância, como também com o Nhozinho Macedo na Folha Trabalhista. Ele viveu na época dourada da Estância, de amizades duradoras, época das fábricas de tecidos, dos bares, cinemas, dos carnavais de outrora, programados pelas indústrias têxtil, banhos de rio nos cantos do Piauítinga, festas de fim de ano na Praça da Matriz, Amparo, Bonfim e Santa Cruz.
Ele foi um fiel amigo e colaborador do jornalista Carlos Tadeu, se comunicava constantemente com os moradores distantes estancianos, como o Major Oswaldo e Frederico Camelier. Tinha o prazer de enviar jornais para esses amigos de longas datas. Eu também comunicava-me com ele através do telefone. E em Estância, ele gostava muito de frequentar a nossa querida feira, onde ele ia quase todos os dias fazer compras diversas. Com a chegada senil, suas pernas foram enfraquecendo, impedindo-o de frequentá-la mais amiúde.
A mais completa memória viva da cidade
Certamente, ele foi a mais completa memória viva da cidade, era muito respeitado, conhecia quase todos os habitantes que viveram no seu tempo de mocidade, lembrava nomes e fatos ocorridos na Estância. Recordo-me que, quando estava fazendo o livro “SOMBRAS DA  SAUDADE,  A História dos Cinemas da Estância” lendo para ele os rascunhos da obra, ele ouvindo atentamente pelo que eu citava, encontrou alguns erros de nomes de pessoas que viveram na época em questão, corrigindo o que estava escrito errado, eu havia copiado esses nomes  no jornal que pesquisei, mas que estava totalmente errado.  Ele era uma enciclopédia estanciana humana.
Quando perguntava a ele tal fato ocorrido no ano tal, ele imediatamente narrava o acontecimento em seus pormenores detalhes, ele era fantástico em lembranças. Vi muitas vezes em sua casa, estudantes o procurando para pedir informações sobre pessoas antigas estancianas, que ele havia conhecido em vida. Sabia tudo, sobres essas   pessoas ilustres.
Ligeira Biografia
João de Agiu nasceu na Estância, em 13 de agosto de1923, viveu modestamente como toda personalidade proletária de caráter. Foi importante na geração em que viveu. Aprendeu a trabalhar na imprensa desde jovem como tipógrafo de Alfredo Silva no semanário A Estância, depois partiu para trabalhar no jornal A Razão e posteriormente na Papelaria Modelo de João Nascimento Filho. Foi funcionário do Ministério do Trabalho, onde ali era responsável pela entrega das carteiras profissionais.
Era um pai exemplar onde cuidou com carinho seus filhos e netos, possuidor de uma bondade extrema, não negava informações a quem o procurasse para tirar dúvidas, ajudar nas biografias, lembrar nomes e em fatos marcantes acontecidos na nossa terra. Viveu os instantes horrorosos da Segunda Guerra Mundial com o torpedeamento dos nossos navios de passageiros em águas sergipanas. Viu a glória e decadência das nossas fábricas de tecidos, conheceu os principais comerciantes e figuras ilustres da sociedade estanciana, foi amigos de todos os jornalistas que participaram dos jornais da cidade. No tempo em que meu pai foi dono do “Bar Sul Americano”, o mais sortido e frequentado pela nossa sociedade, João de Agiu tornou-se seu amigo como também do meu tio Marcos Vinícius Modesto, que também foi anos depois dono desse estabelecimento comercial, e morreu assassinado.
João de Agiu deve ser lembrado pela sua trajetória na imprensa estanciana como um dos mais expoentes filhos dessa cidade maravilhosa, e possuidor de conhecimentos profundos dos fatos mais importantes que fizeram parte da nossa história, sua imagem será para sempre lembrada como a memória viva mais prodigiosa da Estância.
O ilustre cidadão estanciano João Batista de Oliveira Santos, conhecido como o famoso João de Agiu, morreu em 18 de outubro de 2018, aos 95 anos de idade. Foi sepultado no Cemitério Nossa Senhora da Piedade da sua cidade natal.
Nesta simples narrativa feita para o meu amigo Fábio Francão, espero ter citado alguns aspectos da vida desse admirável estanciano da gema, que durante a sua passagem terrena amou sua cidade de forma imorredoura. Que Deus o tenha em sua Mansão da Eternidade.
* Carlos Modesto é cinéfilo e pesquisador
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