Eleição para o governo de Sergipe não é ideológica

* Luciano Correia

O Brasil é um país de cultura e costumes enrijecidos, no pior dos sentidos, se me entendem. Mover uma estrutura daqui para ali exige energia gigantesca. Por isso, em vários setores, o estado geral das coisas muda pouco de um governo para outro, mesmo quando esses governos supostamente são antagônicos. Ontem a Anac, a Agência Nacional de Aviação Civil, implementou medidas duras para coibir com punições financeiras e restrição de voo os passageiros que tiverem condutas inadequadas.

Aqui, toda vez que uma nova aberração sobe no telhado, logo providenciam-se “medidas duras” para enfrentar a escalada da estupidez. A impressão é que antes não haviam regras nenhuma, o que não é verdade. Mas uma nova lei sempre dá o efeito pedagógico de que agora vai. No caso dos abusos cada vez mais frequentes nos voos nacionais e internacionais, o diretor da Anac, um jovem pernambucano, diz que “se conseguirmos pelo menos baixar a curva dos casos, já é alguma coisa.”

A lamentável fala resume o caráter nacional, o tal jeitinho que faz tudo terminar em pizza. Vamos então deixar de lado a boa educação para nos impacientarmos com uma autoridade que não honra o cargo nem dignifica as calças que veste. Como pode, num governo como o de Lula, em que apostamos e seguimos apostando tanta esperança, manter esse nível de covardia e cumplicidade com os malfeitos? Essa é, pois, a tragédia do governo Lula.

Pela primeira vez Flávio Bolsonaro aparece na frente nas pesquisas, ainda na margem de erro. A gente progressista, que ainda acredita na democracia, assiste incrédula, como a duvidar que é possível ver um sujeito com tal folha corrida chegar à presidência. Que não nos esqueçamos de 2018. Tudo hoje é possível, depois de Trump, da morte da era da razão e do triunfo de uma loucura chamada pós-verdade. A extrema direita domina a opinião pública com uma capacidade extraordinária de construir narrativas absurdas e torná-las aceitáveis por mais da metade da população.

E por que a esquerda e os progressistas não conseguem combater as fake news, construindo outras narrativas a partir de fatos verdadeiros? Esse é um longo debate, e não trataremos dele aqui. Antes de buscar as boas fórmulas, é preciso energia, disposição e capacidade de enfrentar o jogo político como faziam antes. No golpe parlamentar que derrubou Dilma Roussef, o barulhento MST não fez um barulhinho só. A esquerda se institucionalizou. Vive a vida boa dos restaurantes, dos ternos de grife e da farra das emendas.

Como na música de Raul Seixas, trancada nos gabinetes, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando um novo mandato chegar. Não estão nem aí para Lula. Só pensam nas próprias campanhas. Mudaram a comunicação do governo chamando Sidônio Palmeira, veterano de campanhas vitoriosas pelo país. Fez um filme bonito, recuperando a autoestima do brasileiro, remetendo para o governo e para os símbolos roubados por Bolsonaro. E só fez esse. Tudo voltou à apatia vergonhosa de sempre.

Em Sergipe, o PT levou a necessidade de sobrevivência à última instância: aliou-se a um governo péssimo, irresponsável, privatista, gastador e festeiro. Uma corrente autêntica, do velho PT de lutas, tentou lançar candidatura própria. Foi atropelado pelo rolo compressor partidário. E o pior: talvez amargue uma derrota de chapa inteira, traído por uma gente que sempre flertou com a direita e o bolsonarismo.

A eleição em Sergipe não é ideológica: é a luta contra esse governo que vendeu a água do povo por R$ 4,5 bilhões, que tomou outros cinco emprestados para não entregar uma só obra consistente. Que até uma ponte inventada, do nada pra lugar nenhum, será custeada pela infame aliança que o PT aceitou fazer. Aqui vamos escolher entre esse governo e a experiência de um jovem administrador vindo de Itabaiana, um ex-marchante, advogado, trabalhador desde menino, com a sintonia do povo sergipano. No plano nacional Lula tem chance, e eu acredito e trabalho por isso.

A eleição de Lula tem jeito, mas não virá de carreiristas e políticos amaciados por um parlamento que hoje joga contra o povo. Aqui, o oportunismo dos que só pensam nos seus mandatos induziu a um erro fatal: serão derrotados com a vitória de Valmir ou de Mitidieri. Com um agravante para pregar nos seus currículos: não terão contribuído nada para a vitória de Lula, caso ele consiga deter o pior dos Bolsonaros.

* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS

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