* Oliveiros Marques
A extrema direita, mundo afora, segue provando que a política, para ela, não passa de atalho para construir ou ampliar fortunas. E não, não estou falando de rachadinhas, de emendas parlamentares desviadas, joias apropriadas indevidamente ou de Rolex recebidos de presente em lanchas. Isso é peanuts. Dinheiro de esmola.
No Brasil, os escândalos do Banco Master, das bets e do INSS deixam cada dia mais clara a relação umbilical de Flávio Bolsonaro com seus protagonistas. O ainda senador negociou pessoalmente com Daniel Vorcaro, dono do Master, ao menos US$ 12 milhões para o filme sobre o pai. Ao banqueiro, escrevia: “irmão, estou e estarei contigo sempre”. A PF investiga o caso por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, e suspeita que parte dos recursos tenha bancado Eduardo Bolsonaro nos EUA e, talvez, agora esteja cobrindo os custos do próprio Flávio em terras do Tio Sam. Amigo e advogado de Flávio, Willer Tomaz é investigado pela PF por lavar mais de US$ 1 bilhão em apostas. E as empresas do senador dividiam sala e contador com as firmas do “Careca do INSS”, pivô da fraude contra aposentados. Em breve, tudo isso deve vir à tona.
Trump, por sua vez, nem disfarça que guerras e tarifaços servem para garantir ganhos no mercado de petróleo e de minerais críticos. Depois do sequestro de Nicolás Maduro, o primeiro lote de petróleo venezuelano vendido pelos EUA foi parar numa empresa de um megadoador da campanha. Enquanto isso, os filhos do presidente aparecem ligados a companhias de mineração que disputam contratos e bilhões em financiamento do próprio governo americano. O ataque ao Irã completa o retrato de quem move as peças.
Lalibela: Moda Feminina Premium, Elegante e Atemporal Lalibela
Javier Milei também se lambuza. Áudios do ex-chefe da agência argentina para pessoas com deficiência descrevem propinas de 3% sobre a compra de medicamentos, com menção direta à irmã do presidente, Karina Milei, a mesma que discursava “viemos para que não roubem mais”. A Justiça já processou o ex-dirigente e outros 18 acusados. Antes disso, Milei havia promovido nas redes a criptomoeda $LIBRA, que disparou e despencou em horas, deixando um rastro de investidores lesados enquanto poucos privilegiados encheram os bolsos.
E agora é a vez do Paraguai. Nesta semana, o Banco Central interveio no Ueno Bank, quinto maior banco privado do país, com 3 milhões de clientes, quase metade da população, por falta de solvência. O banco administra cerca de US$ 800 milhões em recursos públicos. O presidente Santiago Peña foi sócio do grupo dono do Ueno até 2025, e o presidente do Banco Central já comandou o próprio banco.
Esses exemplos revelam o verdadeiro combustível dessa extrema direita que se vende como moralista aos incautos e se pinta de liderança popular, quando, na verdade, só pavimenta o caminho para as próprias fortunas.
A vitória de Lula no Brasil e a lapada dos Democratas sobre os Republicanos de Trump podem indicar o fim do que os mais apressados chamaram de hegemonia da extrema direita no continente. Talvez esteja surgindo uma nova onda que, como a Liga Estudantil na Sérvia, reúna diferentes espectros políticos para varrer os extremistas corruptos, em especial da América Latina.
* Oliveiros Marques, sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

