A quem interessa a volta das bets: os convocados por Fux?

* Maurício de Araújo Lima

Parece que o ministro Luiz Fux mais uma vez quer influir diretamente na vida dos brasileiros do alto de seu posto do Supremo Tribunal Federal. Ele que condenou uma centena de bagrinhos, no julgamento do golpe de 8 de janeiro de 2023, e inocentou Jair Bolsonaro e os militares envolvidos. Para isso vai ouvir quem está insatisfeito com o fim das bets.
Bem, já sabemos a quem interessa a sua volta.
Mas a quem interessa o fim das bets? Para dar um único exemplo bem diferente do que seria a resposta mais óbvia: os produtores de café, de arroz, feijão, macarrão e óleo de cozinha porque, segundo a ABRAS Associação Brasileira de Supermercados, esses produtos lideraram as vendas para as pessoas que deixaram de perder seu rico e suado dinheirinho nos jogos de azar.
Simplificação à parte, o povo brasileiro precisa saber os mecanismos que estão por trás do vício nas bets. O fenômeno recente das plataformas de apostas digitais, exemplificado pelo onipresente “Jogo do Tigrinho”, não é apenas uma evolução tecnológica dos antigos cassinos. Trata-se do uso do Estado de Flow para ocasionar o Sequestro da Subjetividade e provocar uma experiência de envolvimento profundo, onde o tempo se distorce e a autoconsciência desaparece.
O design de jogos opera a perversão desse fluxo. O objetivo não é o prazer do desafio mas a retenção do jogador. É neste ponto que ocorre o Sequestro da Subjetividade, uma apropriação planejada das atividades psíquicas e emocionais do sujeito. O jogador não joga mais por autonomia; sua subjetividade é capturada por um algoritmo, que mimetiza a esperança de ascensão econômica, e esconde uma engrenagem de endividamento através da produção de dopamina, um dos principais neurotransmissores do cérebro humano.
O “Jogo do Tigrinho” e as plataformas de slots online representam a dissolução das fronteiras do cassino físico. Se antes o jogo era restrito aos cassinos, hoje ele reside no bolso de cada cidadão através dos onipresentes celulares. A combinação entre interfaces viciantes e a vontade de se livrar de dívidas motiva as classes média e baixa a apostar o que não têm.
O sofrimento psíquico destaca que a dependência comportamental perverte o sistema de recompensa cerebral. Quando a dopamina de uma situação normal é 10, a do elemento aditivo sobe para 100, inaugurando um parâmetro de satisfação química impossível de ser alcançado pela vida real e cotidiana.
Vivemos sob a “retórica do ódio” e a crise dos jogos em bets guarda semelhanças assustadoras com a crise do ópio na China do século XIX: um entorpecimento em massa com consequências devastadoras para a soberania nacional e a saúde pública. O “bolsonarismo” e o neoliberalismo extremado alimentam essa visão bélica onde o inimigo é interno e a sobrevivência é uma aposta individualista.
Para contrapor essa barbárie, precisamos retomar o lúdico em sua essência. Se o Batman é o bilionário vigilante e o Coringa é o caos do vício, a saída talvez resida na figura do “Menino Maluquinho” de Ziraldo: uma subjetividade não sequestrada, capaz de ver o mundo através da arte, da poesia e do amor. É urgente utilizar os princípios do game design (objetivos, recompensas e interatividade) não para o vício, mas para a educação e a emancipação.
O historiador holandês Johan Huizinga, um dos fundadores da história cultural moderna e grande teórico, define o jogo como um círculo mágico, um espaço sagrado, com regras próprias, onde o ser humano exerce sua liberdade e criatividade. No entanto, na contemporaneidade digital, esse círculo parece ter sido rompido. O jogo, que outrora era um elemento de coesão cultural e desenvolvimento de habilidades, foi transmutado em um mecanismo de extração financeira e entorpecimento social.
A batalha entre a minoria dominante e a classe trabalhadora continua e o jogo só será verdadeiramente humano quando o círculo mágico for devolvido ao povo, livre dos algoritmos do azar. O ministro, até o momento, aparenta estar do lado dos que desejam a volta das bets. Não me parece que seja o lado em o povo está.
Se liga ministro Fux.

* Maurício de Araújo Lima, ludólogo, pesquisador, escritor, poeta e cantor – é mestre em Interações Midiáticas com mais de 30 anos de pesquisa e desenvolvimento de jogos. Fundou a empresa “Origem – Jogos e Objetos” e é Vice-Presidente Executivo da Associação dos Amigos do Museu do Jogo (UFPB).

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