O pós-eleições

* Paulino Fernandes de Lima

Embora já tenha ocorrido o segundo e último turno das eleições presidenciais, o brasileiro parece que ainda não considera encerrado o ciclo eleitoral, tendo em vista que o certame, como se sabe, não foi nada pacífico, gerando uma repercussão que perdurará até Deus sabe quando.
Desde que me entendo por gente (como prosaicamente se fala), já passei por muitos processos eleitorais, mas confesso que nem um deles se compara ao que vivenciamos em 2026.
Discordâncias sempre fizeram e farão parte de toda escolha, mas o que se viu neste ano ultrapassa os limites da lógica. Eleitores de ambos os lados passaram a tratar colegas, amigos e até familiares de forma extremamente indigesta, como arquiinimigos, contra os quais foi declarada guerra.
Esquecem que a vitória de um candidato pode até significar a derrota de outro, mas depois de tudo “vamos precisar de todo mundo” (para lembrar aqui a linda Canção “Sol de primavera”).
Ademais, independente da eleição d’agora, o mandato é periódico, o que propicia a realização de novas eleições, garantindo o princípio da democracia, elemento que conforta os corações desejosos de mudança.
Em parte, os ânimos se arrefeceram com uma magnitude nunca antes experimentada, em toda a história política brasileira, graças ao sacolejo dado na população, nos últimos anos, já que, corriqueiramente, conformava-se com quem quer que estivesse no Poder. Agora, não.
Prova desse descontentamento que passou a contagiar o brasileiro, pôde ser vista, com a renovação conferida nas urnas, de grande parte dos representantes dos Estados, no Congresso nacional, a partir da numérica eleição de senadores dos partidos da Direita.
Embora a Casa representativa do povo (Câmara dos deputados) também tenha mantido um número considerável de deputados, direta ou indiretamente alinhados à Direita, nessas eleições de 2026, chamou mais atenção o número da Casa legislativa dita alta, que terá expressiva representação, a partir da próxima legislatura.
Essa alteração composicional chamou tanto a atenção, que o Legislativo federal, especificamente a Câmara dos deputados, por iniciativa do Presidente da Casa, já começou a discutir a proposta de alteração da representatividade ressuscitando a discussão do voto distrital misto, em detrimento do atual modelo vigorante, a partir de uma nova Proposta de Emenda à Constituição (PEC).
Esse incômodo passou a ocupar, ironicamente, o “centrão” das discussões legislativas pós-eleições, como se mais nada de urgente para o País, houvesse para se tratar por lá.
Enquanto isso, o eleitor segue atônito e sem consolo, em meio às infindáveis responsabilidades que tem para garantir, ao menos, sua sobrevivência.
Segue trabalhando “sol a pino” para ganhar o pão, com o suor do seu rosto; fazendo, das tripas, o coração, para pagar as contas e não sofrer com as conseqüências de negativação de crédito; pegando condução para o trabalho e sofrendo duramente em filas; comendo o pão que o diabo amassou, no infindável amargor da vida nada sossegada dos governados.
Essa é a nossa dura, nua, crua e indesejável realidade.
Sua esperança só é a última que morre, no jargão popular, já que na realidade, parece que prevalece mesmo é a dura aceitação poética de Fernando Pessoa, no Poema Aniversário: “Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças”.
Esse azedume que experimentamos, após o resultado das eleições, semelha ao que um paciente sente quando internado em hospital, sem saber por quanto tempo ficará, ou qual o diagnóstico de sua doença, com uma diferença levemente positiva nesta senda, quando se trata daquelas raras situações, em que a equipe médica ao menos se mostra empenhada em solucionar o problema.
Adiante, as incertezas e imprevisões que o País enfrentará serão outros quinhentos. Por hora, já se sabe que a conta a ser paga logo, logo, não será nada pequena, já que alguns “agrados” concedidos em época de campanha impactarão vulcanicamente na área fiscal, o que porá o contribuinte, injustamente, na responsabilidade de suportar tal ônus.
E isso será só um ensaio da indesejável situação em que o País está submerso.
Ao invés, portanto, de alguns eleitores ainda permanecerem nos palanques, melhor seria se porém em alerta sobre os desafios que o porvir pode trazer, já que nosso Brasil deve estar sempre acima dos interesses individuais ou de grupos.

* Paulino Fernandes de Lima, defensor público do estado de Pernambuco

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