Desafios brasileiros além da agricultura

O setor agrícola nacional responde por quase um quarto da riqueza do Brasil, a décima economia do planeta

* Manoel Moacir Costa Macêdo

O desempenho da produção agrícola brasileira tem sido crescente a cada ano. Safras agrícolas recordes. A CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento estima para 2026/2027, uma safra agrícola de 367 milhões de toneladas de grãos, maior que a anterior.
O setor agrícola nacional responde por quase um quarto da riqueza do Brasil, a décima economia do planeta. Alimento suficiente para alimentar o universo da população brasileira. Injustificável a existência de fome no País. Contradições próprias do assimétrico ambiente social. Concentração da produção agrícola em seletivas commodities comercializadas no mercado global e integradas nas robustas cadeias agroindustriais.
Não faz muito tempo, que mais de 33 milhões de brasileiras e brasileiros padeciam da fome aguda. Inconcebível para um País com tamanha produção de comida, abundância de terras agricultáveis, água, crédito, ciência e tecnologia. Biomas diversos, que permitem a prática agrícola de mais de uma safra anual. Tropical e temperado em equilíbrio, livres de intempéries extremas.
Registros da ONU – Organização das Nações Unidas, demonstraram a superação da fome em sua perversa expressão no Brasil, mas continua a insegurança alimentar. O desafio permanece noutra perspectiva. 20 milhões de brasileiras e brasileiros enfrentam a insegurança alimentar, desses mais de um milhão em situação grave. Constrangimentos para uma sociedade, onde 96% admitem “Deus no comando”, mas consentem a carência de comida para alimentar o universo de seus fiéis. O espírito exige um corpo saudável para a caminhada evolutiva. Pecado humano e não divino.
Vergonhosa a fome em sua agudez, recentemente vencida e que jamais retorne onde se diz que “Deus é brasileiro”. O desafio continua. A incapacidade de um quinto dos nacionais em acessarem regularmente os alimentos nutritivos suficientes para uma vida saudável. Um quinto da população brasileira, carece de renda em face da persistente e abissal desigualdade, para comprar comida. No dizer de um ramo cristão da religiosidade nacional: “a desigualdade social, não é uma lei natural, é obra humana e não de Deus”. Diz mais e com clareza gramatical: “numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deve morrer de fome”.
Vencida a fome, grande feito, realça a pobreza, com insuficiência de renda para adquirir alimento rico em cereais, frutas, verduras, leguminosas e fonte de proteínas. Desafio estrutural que exige determinação política e consenso social, numa sociedade marcada pela escravidão, concentração de renda e riqueza no estrato social diminuto, mas dominante. “A Constituição brasileira garante o direito à alimentação, mas a política de segurança alimentar não constituiu uma política de Estado, como as de saúde e educação”, que ultrapasse os governos e seus mandatos.
No Brasil, para o professor José Graziano, ex-diretor-geral da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura: “a fome e a insegurança alimentar está nos domicílios chefiados por mulheres, no recorte racial, e regionalizadas no Norte e Nordeste”.

* Manoel Moacir Costa Macêdo, é engenheiro agrônomo e advogado.

Compartilhe esta notícia