A guerra no século XXI

Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com

O século XXI começou sob a promessa de que a experiência das duas guerras mundiais e da Guerra Fria havia ensinado à humanidade os limites da violência. Entretanto, pouco mais de um quarto de século depois, o mundo continua convivendo com guerras, conflitos armados, terrorismo, deslocamentos forçados e ataques sistemáticos contra populações civis.
A primeira questão, portanto, é aparentemente simples, mas exige cuidado, quantas guerras o mundo já teve neste século XXI? A resposta depende da definição utilizada. O Uppsala Conflict Data Program (UCDP), uma das principais bases internacionais sobre conflitos, considera guerra um conflito armado que provoca pelo menos 1.000 mortes relacionadas aos combates em um determinado ano. Por essa metodologia, não existe um único número acumulado de “guerras do século”, porque um mesmo conflito pode ser contabilizado como guerra em vários anos. O mais correto é analisar a quantidade de guerras ativas em cada ano.
Os dados mais recentes são particularmente preocupantes. Em 2024, o UCDP registrou 61 conflitos armados envolvendo Estados e 11 guerras, o maior número de guerras desde 2016. Em 2025, foram registrados 65 conflitos envolvendo Estados e 13 guerras, o maior número de guerras desde 1992. Cerca de 244.600 pessoas morreram em violência organizada em 2025, segundo o UCDP.
É importante observar que esses números não significam necessariamente 13 guerras completamente diferentes ocorrendo simultaneamente. A metodologia contabiliza conflitos por ano e intensidade. Por isso, não seria metodologicamente correto simplesmente somar os números anuais para afirmar quantas guerras distintas existiram desde 2000. O que podemos afirmar é que o século XXI acumulou dezenas de conflitos armados e que, nos últimos anos, houve uma deterioração significativa do ambiente internacional.
O contraste histórico é impressionante. Entre 2000 e 2013, o UCDP registrava aproximadamente 31 a 39 conflitos armados estatais por ano. Desde 2015, entretanto, esse número permaneceu em patamar historicamente elevado, chegando a 52-56 conflitos anuais no período analisado até 2021.
O que percebemos é que a guerra mudou e, talvez tenha se tornado ainda mais desumana. As guerras contemporâneas também são diferentes das guerras clássicas dos séculos anteriores. Muitas vezes, o campo de batalha deixou de ser uma fronteira entre exércitos e passou a ser a própria cidade, a escola, o hospital, a infraestrutura energética ou a residência de uma família.
A cientista política e estudiosa da geopolítica Mary Kaldor desenvolveu o conceito de “novas guerras” para explicar conflitos nos quais Estados, grupos armados, organizações transnacionais e interesses econômicos se misturam. Para Kaldor, as guerras contemporâneas frequentemente são prolongadas e inconclusivas e atingem deliberadamente populações civis.
O relatório do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) mostra a dimensão dessa transformação. Em 2025, 49 países experimentaram conflitos armados, foram registrados cerca de 238 mil mortos relacionados aos conflitos, e aproximadamente 117,3 milhões de pessoas estavam deslocadas à força em meados daquele ano. Drones, inteligência artificial, sistemas autônomos e operações cibernéticas passaram também a integrar os instrumentos da guerra.
A tecnologia, portanto, não eliminou a guerra. Em alguns aspectos, aumentou sua capacidade destrutiva.
O historiador britânico Eric Hobsbawm, ao analisar o século XX, chamou atenção para a extraordinária capacidade de destruição alcançada pelas sociedades modernas. Em reflexão sobre o século XXI, ele advertiu que a violência armada provavelmente continuaria presente e que a perspectiva de um século inteiramente pacífico era remota.
A advertência de Hobsbawm permanece atual. A história demonstra que a guerra não é apenas uma disputa entre governos. Ela destrói instituições, interrompe trajetórias educacionais, reduz oportunidades econômicas, produz migração forçada, rompe famílias e deixa traumas que podem atravessar gerações.
A guerra, nesse sentido, representa uma espécie de fracasso acumulado da civilização, pois quando a política, a diplomacia, o direito e a negociação não conseguem resolver uma disputa, a humanidade recorre à força.
O economista Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, oferece uma perspectiva particularmente importante. Sua abordagem do desenvolvimento coloca no centro da análise as capacidades humanas, como a possibilidade de as pessoas viverem vidas que valorizem, tenham liberdade, educação, saúde, renda, segurança e participação social.
A guerra atua exatamente na direção contrária. Ela destrói escolas em vez de ampliar educação; destrói hospitais em vez de ampliar saúde; destrói empregos e infraestrutura em vez de gerar oportunidades; produz fome, pobreza, deslocamento e insegurança em vez de ampliar capacidades.
Estudos inspirados na abordagem de Sen ressaltam justamente essa incompatibilidade entre violência armada e desenvolvimento humano, defendendo o diálogo democrático como caminho para solucionar conflitos.
Assim, a paz não deve ser compreendida apenas como ausência de guerra. Ela precisa ser entendida como condição para o desenvolvimento humano.

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