Como as redes sociais estão decidindo o que o brasileiro vê, acredita e compartilha
* Ney Wagner Melo Ferreira
A eleição não começa no momento em que o eleitor entra na cabine de votação, confirma o voto e deixa a seção eleitoral. Para milhões de brasileiros, ela começa muito antes, na tela do celular.
É ali que chegam vídeos, notícias, comentários, memes, pesquisas, acusações e promessas. Muitas vezes, antes mesmo de o eleitor procurar uma informação, o algoritmo já decidiu o que provavelmente aparecerá diante dele. Essa mudança parece simples, mas representa uma transformação profunda na maneira como fazemos nossas escolhas políticas
Durante muito tempo, televisão, rádio e jornais tiveram papel central na formação da opinião pública. Hoje, qualquer pessoa com um celular pode produzir um conteúdo capaz de alcançar milhões de pessoas. Isso democratizou a comunicação, mas criou uma grave vulnerabilidade: nem tudo o que chega às telas passou por algum tipo de checagem.
Existe algo ainda mais preocupante: a informação agora encontra o usuário. Os algoritmos observam o que assistimos, curtimos e compartilhamos para prender nossa atenção por mais tempo. O resultado é a criação de bolhas digitais. Dois brasileiros com visões opostas passam a viver em mundos informacionais completamente diferentes, embora estejam acompanhando a mesma eleição.
Surgiu, assim, uma provocação necessária: estamos escolhendo nossas opiniões ou os sistemas digitais estão escolhendo por nós? Tomar uma decisão consciente exige acesso a dados confiáveis e a convivência com o contraditório
A velocidade agrava o problema. Uma fake news leva minutos para alcançar multidões, enquanto a desmentida leva horas ou dias e atinge uma fração do público. A repetição contínua da mentira gera a perigosa sensação de verdade. Com o avanço da inteligência artificial, o desafio triplica: fotos, áudios e vídeos simulados nos forçam a questionar não só a veracidade do fato, mas se o fato de fato existiu.
O risco inverso também é real. A desconfiança generalizada permite que verdades inconvenientes sejam descartadas sob a alegação fácil de “montagem por IA”. O cidadão fica preso entre dois extremos: acreditar no que é falso ou desacreditar no que é verdadeiro.
Por isso, um dos grandes desafios do pleito de 2026 não estará nas urnas, mas na capacidade de separar informação de manipulação. Compartilhar também é um ato de responsabilidade pública. Antes de encaminhar um vídeo no grupo da família ou usar uma manchete duvidosa como argumento, precisamos recuperar um hábito simples: checar a fonte, comparar opiniões e duvidar daquilo que apenas confirma nossas convicções.
A democracia depende do voto, mas depende sobretudo da qualidade da informação que chega ao cidadão antes que ele vote. A urna registra a escolha em poucos segundos; a formação dessa escolha leva meses e acontece, em grande parte, na palma da mão. Essa é a eleição que já começou – e precisamos garantir que somos nós, e não os algoritmos, que estamos fazendo nossas próprias escolhas.
* Ney Wagner Melo Ferreira, jornalista, ator, pedagogo e estudante de Direito

