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A Guerra na Ucrânia


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Publicado em 20 de fevereiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


Na medida em que a guerra se prolonga sem avanços significativos, os países

membros da Otan encontram mais dificuldades políticas de continuar a apoiar a Ucrânia

 
* Luís Antônio Paulino
 
Prestes a completar dois anos, a guerra na Ucrânia segue sem perspectivas de um fim próximo. Depois da fracassada iniciativa de retomar os territórios no leste do país sob controle da Rússia, a guerra chegou a um impasse e transformou-se em uma guerra de atrito que pode se prolongar por anos a fio, cujo desfecho dependerá, a médio prazo, da possibilidade de cada lado de manter sua capacidade militar. Nesse quesito, a Rússia está mais bem posicionada que a Ucrânia. Os russos conseguiram estabelecer uma economia de guerra capaz de manter um suprimento estável de equipamentos, armas e munições, além de terem uma capacidade superior de mobilização de pessoas. Segundo a revista The Economist (14/1), “A Rússia aumentou os gastos militares em 68% este ano, atingindo 6,5% do seu PIB. De acordo com o Ministério da Defesa da Estónia, a produção russa de munições de artilharia atingirá 4,5 milhões de unidades este ano”. Enquanto isso a Ucrânia depende exclusivamente do fornecimento externo de equipamentos e encontra cada vez mais dificuldade para mobilizar combatentes.
Segundo Oleksiy Arestovych, ex-porta-voz do presidente Zelenskyy e um dos rostos mais conhecidos da TV ucraniana, agora transformado em um de seus maiores críticos, que planeja concorrer à presidência contra Zelenskyy nas próximas eleições, em entrevista ao UnHerd (15/01), afirmou: “Quando estava no cargo, ouvi-os dizer que quatro milhões e meio de homens, cerca de metade de toda a população masculina em idade de combate da Ucrânia, evitaram registar-se no centro de recrutamento, não para efeitos de recrutamento, mas para verificar os seus dados pessoais. Esta é a prova de que a forma como motivamos o nosso povo para a guerra não é bem-sucedida. Agora estamos a tentar recrutar meio milhão de soldados recorrendo sobretudo a uma campanha repressiva e não a uma motivação positiva”. Enquanto isso, no lado Russo, segundo ele, “Quatorze mil recrutas russos chegam todos os meses aos centros de recrutamento e Putin agora não precisa de convocá-los. Isto é completamente diferente da situação ucraniana”.
Na medida em que a guerra se prolonga sem avanços significativos, os países membros da Otan encontram mais dificuldades políticas de continuar a apoiar a Ucrânia com armas e dinheiro. Nos 33 Estados Unidos um novo pacote de ajuda de US$ 61 bilhões está parado no Congresso, por conta das críticas dos republicanos aos gastos com a guerra e divergências internas entre os dois partidos sobre a política de migração na fronteira com o México.
Conforme noticiou o jornal o Estado de S. Paulo (28/12/2023), “Sem os ganhos esperados, Kiev enfrenta ainda o ceticismo entre aliados de primeira hora, como os Estados Unidos. Em Washington, o Partido Republicano resiste em continuar financiando a guerra. O pacote adicional de US$ 60 bilhões está travado pelo Congresso e, diante do impasse, o presidente Joe Biden parece ter mudado de tom. Ele, que sempre prometeu apoiar enquanto fosse preciso, disse este mês, ao lado do ucraniano Volodymir Zelenski, que ajudará enquanto puder”.
A União Europeia, por sua vez, não consegue aprovar um outro pacote de ajuda de US$ 54 bilhões por causa do bloqueio da Hungria, que apoia a Rússia. A disposição em ajudar a Ucrânia entre os países da Europa também não é a mesma. Enquanto a Alemanha já contribui com € 17 bilhões, a França colocou apenas € 0,5 bilhão nas mãos dos ucranianos. Sem novos pacotes de ajuda, a Ucrânia vê seus estoques de armas e bombas se esgotar e tem dificuldade para manter o esforço de guerra, enquanto a Rússia intensifica seus ataques.
Segundo a revista The Economist (14/01), “No auge da contraofensiva de Verão da Ucrânia, o país utilizava cerca de 7.000 bombas por dia, significativamente mais do que os russos. A situação inverteu-se: desde o mês passado, enquanto as forças ucranianas foram racionadas para 2.000 obuses por dia, os russos dispararam cinco vezes esse número. Falar de um impasse é complacente. O Ocidente enfrenta agora uma escolha, disse Jack Watling, especialista do Rusi, um grupo de reflexão em Londres, no início deste mês. Pode dar à Ucrânia o que necessita, “ou ceder uma vantagem irrecuperável à Rússia”.
Frente às dificuldades, os Estados Unidos estão mudando sua estratégia em relação à guerra, para desespero de Zelenski que clama dia e noite por mais armas e dinheiro. A ideia dos norte-americanos agora é focar na defesa dos 80% do território que a Ucrânia ainda domina ao invés de tentar retomar os 20% sob controle dos russos e esperar o fortalecimento da capacidade da indústria bélica ucraniana para que deixe de depender quase que exclusivamente do fornecimento dos aliados.  
A Rússia conseguiu uma vitória estratégica importante ao longo desses dois anos para decepção dos Estados Unidos e seus aliados na Otan. Como destacou Oleksiy Arestovych, na entrevista ao UnHerd, os russos conseguiram mudar o palco político da guerra, transformando-a de um confronto entre Rússia e Ucrânia em um confronto entre o Norte e Sul Global, conseguindo com isso evitar o isolamento político e econômico que os Estados Unidos imaginavam que iriam lhe impor e graças a isso manter sua economia funcionado.
Como destacou José Luís Fiori em artigo publicado no site “A Terra é Redonda” (16/1), “No entanto, a Rússia resistiu ao impacto imediato das sanções econômicas em 2022. Em 2023, o PIB russo cresceu 3,5% (umas das taxas mais altas do mundo), sua taxa de desemprego caiu para 2,9%, sua massa salarial aumentou 8%, sua renda per capita 5% e sua produção manufatureira foram elevadas em 9,4 %, entre março e agosto do mesmo ano. Além disso, a própria guerra na Ucrânia se transformou num grande desafio externo e provocou uma profunda redefinição da estratégia de desenvolvimento econômico e de inserção internacional da Rússia, com o fortalecimento do papel do Estado, da indústria nacional e do mercado interno. Em dois anos, o uso do dólar nas transações externas da Rússia caiu de 87%, em 2021, para 24% em 2023, e o país logrou se reposicionar dentro da economia internacional, aumentando sua integração com a China, a Índia e com os inúmeros países que não aderiram às sanções impostas aos russos pelos Estados Unidos e pela União Europeia. E hoje, dois anos depois do início da guerra na Ucrânia, em termos “da paridade do poder de compra”, a economia russa já é a primeira da Europa e a quinta mundial. Neste sentido, já não cabe mais dúvida de que os europeus e os norte-americanos avaliaram equivocadamente a capacidade de resistência da Rússia como potência militar, energética, mineral, agrícola e atômica, nem conseguiram prever a importância de longo prazo da integração da economia russa com as economias chinesa e indiana. Um “erro de cálculo” das potências ocidentais que já provocou um dano enorme, sobretudo dentro da União Europeia, que entrou num processo prolongado de recessão, com aumento da inflação e da revolta social, junto com um verdadeiro tufão de ultradireita que pode acabar enterrando os últimos vestígios do projeto de unificação europeu”.
Além disso, no plano interno, conseguiram mobilizar politicamente o país em torno do esforço de guerra e da justeza de seus objetivos, apesar do enorme número de baixas. Enquanto isso a Ucrânia vê-se cada vez mais dividida internamente, seja pelos escândalos de corrupção envolvendo o desvio de recursos de guerra, seja porque a ideia de transformar a Ucrânia, um estado multinacional e multicultural, em um monolito pró-Ocidente não encontra apoio sobretudo entre a população de língua russa que se vê como um grupo de segunda classe dentro do país.
Conforme destacou Oleksiy Arestovych na mencionada entrevista, “A questão principal é porque estamos vivendo e morrendo. E a Ucrânia, como sociedade e cultura, tem muitas respostas para esta questão. Somos completamente diferentes. O principal problema da Ucrânia é que alguns políticos começaram em 1991 a transformar a Ucrânia de um estado policultural e polinacional, num país mais monoétnico e monocultural, como a maioria dos países europeus como a Polónia. Mas significa a perda de um território completamente diferente – território de língua russa, por exemplo, no Leste da Ucrânia e no Sul da Ucrânia. E muitos ucranianos, estes 4,5 milhões de ucranianos que não queriam ser recrutados pelo Estado, não queriam ser recrutados por esta ideia política. Este não foi um problema de contrato social, de boas pensões para seguranças militares reformados ou algo assim, é uma questão do futuro da Ucrânia. Acho que muitos ucranianos não querem fazer parte de um projeto de mononação. (…) Penso que a Ucrânia tem de ser uma nação política, mas poliétnica e policultural. Porque se quisermos manter a Ucrânia nas suas fronteiras de 1991, mesmo oficialmente temos 58 nacionalidades aqui na Ucrânia. Extraoficialmente são mais de 100: muitas línguas, muitas culturas diferentes, muitas histórias diferentes, de regiões. O ucraniano é um Estado que foi criado a partir de partes de grandes impérios – austro-húngaro, alemão, polaco e russo – e temos tradições absolutamente diferentes. Você pode imaginar, porque para a Grã-Bretanha é fácil de entender. É como País de Gales, Escócia, Irlanda. (…) As pessoas não se recusam a alistar-se no exército por causa dos perigos de ferimentos ou morte, mas porque não compreendem a resposta à pergunta: por que é que temos de ser um só país? Por que temos que ser um estado? Por que razão precisamos de um Estado ucraniano? Muitos dizem que o Estado ucraniano me dá a possibilidade de obter o passaporte ucraniano e entrar na Europa ou em outro país. Esta é a principal superioridade de Putin. Os soldados russos sabem por que lutam: lutam pela Grande Rússia”.
 
* Luís Antônio Paulino, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), diretor do Instituto Confúcio na Unesp, pesquisador do Instituto de Estudos de América Latina da Universidade de Hubei, China e colaborador do portal Bonifácio.
 
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