Marcélio Bonfim, histórico militante comunista, contou na Comissão da Verdade a história de um tempo que ele viveu, e nele agiu, sofreu, e muito resistiu. Fez passar, quase aos olhos de uma plateia predominantemente jovem, a imagem viva e vívida de meio século das turbulências políticas que atravessou o nosso país como coadjuvante periférico da cena geopolítica global polarizada pelo confronto entre dois sistemas de sociedade, de governo, de economia, enfim, de visões conflitantes sobre a forma de existir. O grande conflito, assumindo nuances diversas, marcou aquele século como o tempo das grandes hecatombes, a catástrofe que acontece quando o ser humano descura da civilidade e afunda na selvageria.
Marcélio foi vítima daquela perda de convivência democrática que levou os brasileiros a se tornarem inimigos, e alguns, a cometerem a atrocidade das torturas à sombra da cumplicidade, ou omissão do poder. Hoje, na condição de testemunha ele carrega no corpo as marcas da violência, todavia depondo, foi fiel aos fatos, com emoção, mas sem vestígios de odiosidade ou pretensão de revanches, fez, tão somente, o que espera a Comissão, ao convocar depoentes, para obter a imagem veraz da História através das memórias dos que ainda as possuem, vivos, para destrinchá-las.
Marcélio falava de um tempo de autoritarismo cujas origens poderiam ser buscadas nos episódios que levaram o presidente Vargas ao suicídio (24/8/54) e que guardam semelhanças com os dias que atravessamos, mas, agora, sem a presença marcante de um Estadista, Getúlio, e de tantos protagonistas que, de ambos os lados, faziam da política um ofício nobre, do qual a honra raramente se distanciava. Hoje, uma mixórdia de personagens menores toma conta da cena.
Marcélio era criança em 54 e daqueles episódios não guardava memória, sua narração começou por volta de 59, quando houve a Revolução Cubana, e os barbudos guerrilheiros logo se tornaram ícones e exemplos para a ação revolucionária.
Na manhã de segunda, dia 21, enquanto Marcélio falava daquele tempo em que no Brasil uma simples referencia a Cuba resultava em cadeia, o presidente Barack Obama, na Praça da Revolução em Havana, festejado pelos cubanos, depositava flores no monumento a Jose Marti, o herói nacional de Cuba. Assim encerrava-se uma era de desentendimentos que, há mais de 50 anos quase levou o mundo a uma guerra nuclear. Bem perto estava a imagem enorme do Che Guevara, pintada na parede branca de um edifício. O mais famoso e emblemático revolucionário do século passado, algumas vezes lírico dizia que ¨era preciso endurecer, mas sem perder a ternura¨.
Feito prisioneiro na solidão dos contrafortes andinos, Guevara foi executado por um tenente boliviano a soldo da CIA. Preso, seria sempre uma ameaça, morto, o capitalismo logo apropriou-se da sua imagem transformando-a em lucrativo negócio. Guevara, se vivesse, teria constatado que não há economia que se movimente onde o Estado é patrão de tudo, inclusive das consciências.
A História anda, e é sempre surpreendente, desafiando vidências e teorias. Mais dia menos dia acaba o absurdo bloqueio econômico para sufocar a ilha teimosa que realizou prodígios na educação, na saúde, no esporte, que apresenta cifras irrisórias de criminalidade e não tem analfabetos, mas, emperrou na burocracia da máquina estatal improdutiva, na esclerose de um regime envelhecido.
Todavia, a idiotice decrépita de fanáticos anda por aqui a ressuscitar o que a queda do Muro de Berlim já sepultou, e repete o discurso imbecilizado do ¨perigo cubano¨ da "ameaça vermelha¨ sem enxergarem as voltas que o mundo deu. Os amalucados porta-vozes desse besteirol, que seria engraçado se não fosse perigoso pela odiosidade onde se nutre, estão a pedir, como remédio para os nossos males uma ditadura.
Precisaremos de muitos Marcélios para que contem por experiência própria como um golpe acabou com a democracia e as garantias individuais que, parece, ainda existem hoje, amparando inclusive aqueles que cometem o desatino de pedir uma ditadura.


