Sexta, 23 De Fevereiro De 2024
       
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Amy, um bestseller


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Publicado em 19 de agosto de 2023
Por Jornal Do Dia Se


Flamejante.

Rian Santos – [email protected]
 
Amy Winehouse faria 40 anos no próximo dia 14. 
Para celebrar a data e divulgar o livro ‘Amy Winehouse In HerWords’ (Amy Winehouse nas Próprias Palavras, em tradução livre), os pais da cantora divulgaram trechos dos diários que ela manteve na adolescência. A leitura mostra, por um lado, algo da personalidade singular que marcaria seu estilo e sua carreira: “Estou feliz por ser diferente. Não é como se eu quisesse ser como todo mundo”. Por outro, revela ansiedades típicas da idade: “Às vezes eu penso, eu me pergunto se há alguém. Será que o amor vai cruzar meu caminho?”.
A empreitada editorial é digna dos aproveitadores mais reles, um decalque fetichistada necrofilia insuflada pela indústria cultural, não acrescenta uma única vírgula ao chorume da idolatria que sucede as tragédias pessoais no meio artístico. Tem tudo para virar um bestseller,  portanto.
Amy Winehouse partiu desta para melhor há bons doze anos. Naquele dia 23 de julho, a cantora inglesa sucumbiu ao peso da fama e da própria imaturidade. De tudo o que cantou e viveu, até o fim, no entanto, restou a imagem deformada de uma artista aos tropeços, rasgando a própria garganta à beira do abismo, para deleite do populacho.
Ainda não há registro biográfico à altura do trabalho e da artista em carne e osso. O filme indicado ao Oscar de melhor documentário não fez justiça ao seu trabalho. Apesar dos aplausos irrefletidos amealhados mundo afora, ‘Amy’ (2015), de AsifKapadia, não vai muito além do farto material produzido antes por tablóides e o sub jornalismo de celebridades. Os escândalos regados a muita birita e heroína, a ruína progressiva da artista, são os únicos interesses manifestos da direção. De música, pouco se fala.
Duas horas de entrevistas, imagens de arquivo e depoimentos edulcorados. Nada que os urubus a serviço da imprensa marrom já não tivessem relatado com o mesmo apetite. A Amy, pouco lhe valeu a voz educada no melhor da tradição Jazz. Da sensibilidade fermentada na música negra americana, sobrou uma caricatura junkie – rasa e tão fascinante, é preciso admitir, quanto um personagem de ficção barata.
Alguns discos pagam uma vida inteira de atropelos. ‘Back toblack’ (2006), cujo sucesso deve ser atribuído também ao produtor Mark Ronson e a banda The Dap-Kings, é desses. Mas para o filme de Kapadia e a memória do prezado público o registro rendeu um Grammy para uma artista em crise de abstinência tóxica. E pronto.
Entre todos os efeitos perversos provocados pela cultura de celebridade em voga nesses dias confusos, reflexo de um ambiente adoecido (salve, Flavio Antonini!), a apreciação deformada do exercício artístico talvez esteja entre os mais danosos. A pertinência de parâmetros e referências sucumbiu aos algorítimos das redes sociais. Por isso ‘Amy’ foi aplaudido no Oscar. Apesar de não iluminar, nem por um breve momento, a flamejante discografia da biografada.
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