Ano novo começa em Sergipe com 18 assassinatos no feriadão

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

O ano de 2016 começou com a violência em alta, assim como no final de 2015. Apenas no período entre a meia-noite do dia 1º de janeiro e às 7h de ontem, 35 mortes violentas ocorridas em todo o Estado foram registradas pelo Instituto Médico-Legal (IML). No total de vítimas, estão 18 pessoas assassinadas por arma branca ou arma de fogo. Os homicídios representaram mais que o dobro das sete mortes causadas por acidentes de trânsito no mesmo período. Foram recolhidos ainda três corpos de vítimas de quedas, três de causas indeterminadas, uma de afogamento, uma de enforcamento e uma que morreu após levar centenas de picadas de abelhas.

A maioria dos homicídios aconteceu na região da Grande Aracaju, incluindo casos que chocaram pela violência empregada pelos assassinos. Um dos casos que ganhou destaque foi o atentado ocorrido às 20h da sexta-feira na esquina das ruas Canadá e Afonso Pena, bairro Novo Paraíso (zona oeste da capital), onde dois homens armados passaram de moto e abriram fogo contra um homem que caminhava pelo local. Um dos tiros acertou o menino Alex Gabriel Lima da Fraga, oito anos, que brincava com os colegas na porta de casa e não teve tempo de fugir dos disparos. Augusto César Ribeiro, 40 anos, apontado como o único alvo dos assassinos, também morreu baleado e, de acordo com familiares, já foi vítima de uma primeira tentativa de homicídio no bairro Santa Maria. A dupla de atiradores fugiu.

Outro crime semelhante também teve dois mortos e uma criança ferida. Foi às 20h de domingo na "Baixa da Cachorrinha", uma comunidade do bairro 18 do Forte (zona norte). O motoboy Fabiano de Jesus Santos e o passageiro Edson Bispo dos Santos, ambos com 26 anos, passavam pelo local a bordo de uma moto quando foram cercados e executados por desconhecidos que, segundo a polícia, aguardavam pela passagem deles em um beco e dispararam vários tiros. Na hora do crime, um menino de quatro anos que brincava na porta de uma casa vizinha também foi atingido, mas sobreviveu e foi atendido em um hospital, sem risco de morte.

Um terceiro caso chamou atenção pela motivação machista: Maria Roseli Lino dos Santos, 29, morreu esfaqueada pelo vizinho em plena rua onde morava, no Loteamento Nova Liberdade, bairro Olaria (zona oeste), na tarde de sexta-feira. Segundo a polícia, a vítima teria sido assediada verbalmente por Duílio dos Santos Silva, 30, apontado como alcóolatra, usuário de drogas e protagonista de vários desentendimentos com a vizinhança. A vítima reclamou da cantada que sofreu, por considerá-la grosseira, mas foi surpreendida perto de casa por Duílio, que já estava armado com uma faca e deu-lhe vários golpes pelas costas, matando-a na hora. O acusado conseguiu escapar, mesmo sendo agredido por algumas testemunhas que viram o crime e, estarrecidas, tentaram detê-lo.

Já no interior, o destaque ficou um caso de latrocínio (roubo seguido de morte) na região Agreste, ao final da tarde de domingo. Em Itabaiana, o estudante Maykon Andrade, 17 anos, foi rendido em uma estrada de acesso ao povoado Agrovila, onde teria sido obrigado a parar o ciclomotor que dirigia. Os ladrões levaram o veículo e ainda atiraram contra o rapaz, que caiu morto na estrada. Já em Moita Bonita, a vítima foi Cosme Joaquim de Oliveira, 53, o qual, conforme testemunhas, teria acelerado para fugir da abordagem de dois assaltantes que tentaram rendê-lo e atiraram pelas costas. Cosme morreu no local, mas a moto dele não foi levada pelos criminosos. Mesmo assim, a polícia acredita que estes crimes podem ter os mesmos autores.

Fatores – A Polícia Civil já começou a investigar todos os homicídios registrados no início deste ano e tem indícios sobre a motivação de boa parte deles. Segundo o delegado Alessandro Vieira, diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), boa parte dos assassinatos pode ter ligação com as drogas, seja direta ou indiretamente.
"Nós temos uma prevalência de casos ligados ao tráfico de drogas, desde a disputa por espaço. Tivemos, no caso dos dois mortos na ‘Baixa da Cachorrinha’, um evento de disputa por espaços de bocas de fumo entre duas quadrilhas. A cobrança por divida de drogas provavelmente está na raiz do evento que resultou na morte do cidadão de 40 anos e da criança que brincava na porta de casa", suspeita o diretor, alertando que esta constatação desperta para a necessidade de mais efetivo, estrutura e investimento em unidades da polícia que combatem diretamente o tráfico de entorpecentes.

Alessandro admite que o alto número de homicídios logo no começo de 2016 é um reflexo do crescimento da criminalidade no ano de 2015. Ele estima que o balanço do ano anterior pode fechar com um aumento entre 15 a 20% no número de mortes em Sergipe, mesmo com o aumento das prisões de suspeitos e das conclusões de inquéritos da polícia. Só o DHPP realizou 220 prisões ao longo do ano passado – o dobro do registrado em 2014.

No entanto, o diretor acredita que há "vários fatores que se repetem" e causam o aumento da criminalidade. "Você tem o tráfico de drogas presente com muita força nos bairros e uma circulação cada vez maior de armas de fogo. Você tem uma ineficiência do estado em manter criminosos encarcerados por mais tempo, porque o Estado de Sergipe não tem uma unidade prisional de regime semiaberto, o que leva aqueles criminosos de condenação um pouco mais baixa a migrarem imediatamente para o regime aberto. Você tem uma insuficiência de policiais na Polícia Civil e na Militar. E a consequência de tudo isso somado é essa questão da violência e da insegurança presente [na sociedade]", avalia Alessandro.

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