O Dr. Juiz reduz a imagem de Lampião ao último estágio da moralidade, dizendo que o mesmo era gay, estéril e covarde. Sentindo a honra de seu avô vilipendiada, ofendida, sua neta recorreu aos caminhos da Justiça impedindo a publicação e recolhendo os que estavam nas Livrarias
*Ary Moreira Lisboa
Acabo ler o último livro de Lauretino Gomes, 1889, antecedidos pelos 1808 e 1822, onde o período do Império brasileiro é narrado com uma realidade jamais vista ou ensinada no período escolar. Este último, então, pode ser considerado como a melhor obra já escrita sobre o tema, assim penso, apesar de não ser crítico literário ou de história contemporânea. Pelo menos é o que já li. É um livro repleto de novidades e preciosas informações, merecedor de ser utilizado nas escolas. No momento em que luminares populares se insurgem contra a publicação de biografias sem autorização de seus biografados, meramente por desejos inconfessos de auferir mais ganhos, é lamentável que se procure castrar informações. Também terminei de ler Getúlio, uma trilogia composta por Lira Neto, desde o seu nascimento até o suicídio em 1954.
Mas foi patética a entrevista de Roberto Carlos, onde ele gagueja, tartamudeia tatibitatemente, demonstrando o desejo de "vender" a sua história e ficou claro o intento de todos. É triste, muito triste, pois a obra do biógrafo, na verdade, é uma espécie de corvéia, apenas prestando uma preciosa informação ao público daquele de quem se fala.
Tenho lido muitas biografias, algumas das quais de vultos históricos e heróis. Muitas vezes são distorcidas das verdades, de acordo com o humor do biógrafo, nem sempre coerente com o que pretende contar, sobretudo se o biografado é do seu agrado.
Tenho uma proibida de um juiz aposentado de Sergipe, cuja publicação foi impedida e recolhida pela Justiça, atendendo pedido de uma neta de Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, que os nordestinos chamam de "Lampeão", mais conhecido por Capitão Lampião, cujo título, segundo o historiador Frederico Pernambucano, foi outorgado pelo Padre Cícero, que embora constrangido, na presença de apenas um funcionário da Receita Federal, em Juazeiro-CE, redigiu o documento, que o facínora, como o denomina o Dr. Juiz, exibia com muito orgulho.
Conta Frederico Pernambucano que o apodo de "Lampeão", foi em razão da maneira como ele usava a arma de repetição ao atirar. Inventou um processo para acionar o gatilho com tanta maestria e rapidez que aos presentes parecia que a arma expandia fogo, luz. Daí ao apelido foi um lampejo! (sem trocadilho). Pois o Dr. Juiz reduz a imagem de Lampião ao último estágio da moralidade, dizendo que o mesmo era gay, estéril e covarde. Sentindo a honra de seu avô vilipendiada, ofendida, sua neta recorreu aos caminhos da Justiça impedindo a publicação e recolhendo os que estavam nas Livrarias.
Leonardo Mota, em seu Livro Violeiros do Norte, conta o mesmo quando da prisão de Antonio Silvino da Paz. Os cantadores o enalteciam antes da sua prisão. Depois do seu confinamento, começaram a difamá-lo, pois, segundo ainda Leonardo Mota: "parença não é certeza". Cheguei a cogitar se o Dr. Juiz teria audácia de escrever tantas diatibres, inúmeros doestos, se acaso o facínora fosse vivo. Toda ausência é atrevida.
Numa biografia de Cleópatra é ela retratada, descrita como uma mulher inteligente, culta, falando mais de oito línguas, latim inclusive, e que sempre recebia os embaixadores estrangeiros sem o recurso de intérpretes. Morreu ainda jovem, aos 39 anos, bem diferente daquela que conhecemos do ginásio, descrita como devassa e ninfomaníaca.
A biografia de Roberto Carlos, escrita por um baiano, adormece nas prateleiras, nos depósitos da Editora que a publicou. Isso porque o biógrafo teve a infelicidade e indiscrição de dizer que o "astro" tinha uma perna mecânica, fruto de um acidente de atropelamento por uma locomotiva, que os mineiros, e todos nós chamamos de TREM. Em Teixeira tem um velho amigo, "Perneta", (sem preconceito) que teve a perna amputada em Teófilo Otoni, MG, por um "TREM" da Bahia e Minas, quando ainda criança. Depois de velho, em frente ao nosso Fórum Novo, foi novamente atropelado por um maluco, quando em sua moto, com uma perna mecânica, trafegava pela avenida. Por ser pobre e desconhecido, não se constrange em narrar sua desdita, seu sofrimento em viver sem uma perna, exibida para todos.
Há uma relação intrínseca entre o historiador e o biógrafo. Boris Fausto é um historiador atual que revive momentos históricos sobre as muitas Repúblicas que teve o
Brasil. Getúlio Vargas é biografado muitas vezes, inclusive nas telas de televisão, onde o próprio Boris Fausto, narra os fatos. Depois que inventaram o dinheiro, o capitalismo, todos pensam apenas lucrar. Então Gandhi tinha razão ao dizer: "Que pesada carga de pecados e males a riqueza, o poder e o prestígio impingem ao homem". As filhas de Guimarães Rosa não consentiram na publicação nos Mil Contos Brasileiros, os dele. A ausência privou muita gente de apreciar o que de mais belo existe na literatura brasileira. "Teimosia é a firmeza de caráter adulterada pela estupidez" (Nietzsche). Nerival Pereira de Alcobaça, é um dos cinco leitores meus. Estimulante!
* Ary Moreira Lisboa é advogado e escritor


