Boa sorte, Ancelloti

A professora e escritora Vânia Azevedo

Diante do forte lobby, não me surpreenderei caso sua convocação se confirme, sobretudo quando o capitão da seleção, Casemiro, exerce influência sobre o técnico para favorecer o amigo

* Vânia Azevedo

Se há algo que o brasileiro aprecia é uma controvérsia, sobretudo quando envolve futebol, tema que muitos acreditam dominar a ponto de desprezar qualquer treinador que não compartilhe sua opinião. E se o caso Neymar leva comentaristas esportivos a opinarem com evidente paixão, imagine o que esperar dos torcedores.

Desde que foi entregue ao departamento médico do Al-Hilal em sua frustrante passagem pela equipe, Neymar nunca mais foi o mesmo. Desde o longo afastamento até as limitações que a cirurgião lhe trouxe, fizeram com que o técnico português, Jorge Jesus, repensasse a sua permanência na equipe, situação que levou o seu técnico a afirmar que “embora o nível técnico seja inquestionável, a condição física impedia o atleta de acompanhar os demais”. Isso o impediu de ser inscrito no campeonato nacional e causou a demissão do jogador, algo impensável a poucos anos atrás.

Obviamente, as declarações do treinador desagradaram o atleta, mas tal avaliação foi determinante para o fim de sua passagem pelo Al-Hilal, e, consequentemente, para a ausência de interesse de outros clubes estrangeiros; razão que motivou o seu retorno ao futebol brasileiro.

O mais lamentável, porém, é constatar que a imprensa esportiva (com poucas exceções) ainda se nega a reconhecer que era sobre isso que Jorge Jesus falava, mesmo após novas lesões do jogador desde que chegou ao Brasil, detalhe que o impede de continuar jogando em alto nível. E mesmo depois de tentativas frustradas de reencontrar o seu melhor futebol, há quem defenda sua convocação, desconsiderando sua condição física e baixo rendimento em um campeonato distante do ritmo frenético das ligas europeias; ainda assim, ele não conseguiu demonstrar merecimento para ser convocado. Paralelamente, seus colegas de seleção o querem por perto, ainda que seja apenas no banco, como alguns argumentam.

Hoje, quando for anunciada a lista dos 26 convocados, se Neymar estiver entre os escolhidos, estaremos adotando um novo critério de seleção, visto que o atleta historicamente era chamado pela sua forma atual e não pelos feitos passados. Diante do forte lobby, não me surpreenderei caso sua convocação se confirme, sobretudo quando o capitão da seleção, Casemiro, exerce influência sobre o técnico para favorecer o amigo, desqualificando outros companheiros, como fez ao mencionar Endrix. Se for manter a resenha do grupo, o critério é perfeito e “o menino Ney” resolve. Mas, se a meta é buscar o título, levar jogadores íntegros fisicamente é mais seguro do que apostar em Neymar, “mesmo que venha com uma perna” – como costumam argumentar seus denfensores – desacreditando outros companheiros que nesse momento podem oferecer bem mais do que o preferido deles.

Seja qual for a decisão de Carlos Ancelloti, vai precisar de uma boa dose de sorte, pois qualquer que seja o resultado (principalmente se não for o título) a responsabilidade recairá sobre ele, uma vez que as pessoas não estão dispostas a apreciar o espetáculo e esperar que vença o melhor, mas o que lhe convém: nesse caso, o Brasil.

* Vânia Azevedo é professora

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