Saúde mental, nem atleta está imune

A professora e escritora Vânia Azevedo

* Vânia Azevedo

Em tempos de ansiedade galopante, já não se sabe mais qual é o nível saudável dessa emoção necessária para impulsionar a vida, manter o indivíduo ativo, focado e em movimento. São tantos os fatores que potencializam essa condição que a normalidade vem sendo perdida de vista. O que antes poderia ser apenas um fator gerador de motivação, passa a ter um efeito intimidante, levando o indivíduo a um medo paralisante e assustador.

Contudo, é indispensável lembrar que nem toda ansiedade é um transtorno mental. Em doses equilibradas, ela é necessária para nos tirar da inércia. Possui o seu lado positivo: previne a apatia e mantém o estado de alerta que impulsiona a ação, conforme acontece nos momentos que antecede uma prova, um trabalho ou uma competição. Como já afirmava Charles Darwin, “a ansiedade ajuda a prever a chegada do predador”. Todavia, quando o nível de ansiedade desestabiliza o emocional a ponto de paralisar o indivíduo, é certo que este já migrou para uma condição terapêutica crítica e demanda cuidados específicos.

O recente caso de Duda Lisboa, nossa medalhista de ouro em Paris, abandonou o mundial de vôlei de praia na Austrália (mesmo após quatro vitórias), ao ter a saúde mental impactada por pressões internas e externas, desencadeando transtorno de ansiedade. O caso de Duda lembra Naomi Osaka. A tenista japonesa se retirou de Rolland Garros em 2021, citando a saúde mental como motivo a sua negativa diante das entrevistas. O alerta chama a atenção para a situação que está tão presente no meio esportivo quanto o glúten nas massas. Porém, só após atletas de alto rendimento tornarem público suas lutas (Simone Biles, Michael Phelps, Gabriel Medina, Rebeca Andrade, Diego Hypolito, etc.) é que o meio esportivo passou a considerar a gravidade do problema, desmistificando o tabu da doença mental – longe de ser um fato novo.

O futebol, então, já contabiliza números significativos de vítimas de ansiedade e depressão, com estatísticas alarmantes em virtude da pressão que sofrem por desempenho, além da marcação sob pressão que estão sujeitos em vista da exposição midiática. No Brasil, pouco se soube sobre casos como os de Pedrinho, Ronaldo Fenômeno, Cicinho, Nilmar, Thiago Ribeiro, que em função de sucessivas lesões tiveram suas carreiras ameaçadas e até finalizadas por causa da depressão. Lembrando que Philippe Coutinho (Vasco da Gama) foi uma dessas vítimas, quando teve sua carreira fortemente comprometida pela depressão.

Embora o estilo de vida seja fator determinante nesse processo, raramente temos feito o necessário para mitigar a situação que o alimenta. Somente uma mudança expressiva nos hábitos e nas prioridades pode representar uma chance real de reversão. Nesse contexto, as redes sociais, aliadas aos videogames, assumem um protagonismo inquestionável, desafiando as regras de convivência saudável nos lares e ampliando de forma preocupante o número de crianças, jovens e adultos com sintomas de ansiedade. Em muitos casos, a tensão chega a provocar desde um sofrimento emocional incapacitante até dificuldades respiratórias.

Todos os segmentos da sociedade estão sujeitos a problemas que alteram a saúde mental.

Essa condição, marcada pelo pânico e pela insegurança, tornou-se o passaporte para uma vida problemática e de consequências sérias na fase adulta. Afeta o desenvolvimento escolar, fragiliza a autoconfiança e compromete a capacidade de viver de forma plena e produtiva.

Ao olhar para trás, percebemos o abismo que existe entre o estilo de vida das gerações passadas e o da atual. O brincar já não é a principal atividade das crianças. Em algum momento do percurso, passou-se a acreditar que a infância deve ser ocupada por compromissos em excesso (geralmente de adultos); que a escola só é relevante se mantiver o aluno em tempo integral sob seus domínios; e que a prática esportiva, antes essencialmente lúdica, agora se tornou uma arena de caça a talentos precoces, onde o lúdico cede lugar à competição. Assim, enquanto alguns são exaltados, muitos são deixados à margem, alijados por um sistema que valoriza o desempenho acima da experiência.

Nada, porém, pode ser mais natural para uma criança do que dispor de tempo para brincar e ser feliz. As atividades essencialmente lúdicas, como correr, saltar e arremessar, desenvolvem habilidades básicas sem a rigidez imposta pela sociedade moderna. O consumo excessivo de brinquedos eletrônicos, por sua vez, limita o desenvolvimento motor e inibe a capacidade de criação do indivíduo, enfraquecendo o contato com outras formas de brincar que favorecem o crescimento saudável.

Em vista disso, feliz aquele que mesmo imerso nesse contexto, e vítima inconteste dos novos tempos, ainda consegue escapar desse padrão de condicionamento. Como uma semente soprada por um vento ocasional, que germina distante do terreno fértil da produtividade precoce, sob as condições insanas dos nossos dias.

* Vânia Azevedo é professora

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