* Vânia Azevedo
Decididamente, é impossível manter-me indiferente às questões sócio políticas que, como uma bola de neve, cresce e segue deslizando como os dedos do pianista sobre as teclas do piano, cujas notas vibram intercaladas entre graves e agudos reverberarando o efeito causado. E mesmo quando o indivíduo finge não se dar conta e segue vivendo à margem dessa realidade, as consequências dos conflitos mundiais são sentidas na sua vida do amanhecer ao anoitecer. Na verdade, é um rolo compressor que quando não atinge na primeira investida, segue esmagando paulatinamente, dificultando cada vez mais qualquer reação.
Nós brasileiros, por exemplo, somos filhos de uma cultura que sempre privilegiou o deixa pra lá, e se notabilizou por séculos com o tradicional salve-se quem puder. Somos um povo pacífico que, mesmo quando atingido, dificilmente esboçará uma reação, deixando claro que a briga do outro não lhe interessa. Acumulamos em séculos de existência, histórias de corrupção em benefício próprio dos maus governantes, cujo poder sempre esteve associado à necessidade de enriquecimento ilícito, subentendendo-se que a criação de políticas públicas e o beneficiamento da população até pode vir, desde que essas verbas não desembarquem 100% no seu destino, (como se os intermediadores já não fossem bem pagos para a função que ocupam), constituindo-se ocasionalmente os desfalques, os desvios, subornos e propinas, fruto do modus operandi dos usurpadores do colarinho branco.
Não obstante essa situação, não basta a competência para a conquista do emprego, constituindo-se a troca de favores o fator determinante em questão. O que implica uma dívida de gratidão a pagar, que geralmente será cobrada em momento (in)oportuno. E se no país em que vive, nossos representantes são capazes de desviar verbas que iriam favorecer a classe mais necessitada da população (aqueles cuja miséria campeia em números tão expressivos), por que se preocuparia com aqueles que sofrem do outro lado do mundo?
O interesse pelo social nunca fez parte da nossa formação escolar, situando-nos à margem de todo conhecimento que diz respeito à política e aos mecanismos por ela utilizados para viabilizar a criação de políticas públicas, tão essenciais para assegurar melhores condições de vida a um país com tamanha desigualdade social. Sempre nos ensinaram que as lutas sociais estavam associadas a estudantes sem compromisso com o futuro (vistos como jovens agitadores), e que os movimentos estudantis são análogos àqueles que os utilizavam com objetivos políticos; como se estar alinhado aos problemas e lutas partidárias fosse algum demérito para os estudantes.
Com base nesse pressuposto, somos obrigados a acreditar que realmente o sistema escolar vigente sempre contribuiu para uma formação “capenga”, formando médicos, advogados, professores, etc., enquanto alimenta a equivocada percepção de que a política é reduto de ladrões. Acreditar nessa teoria é mais fácil do que mergulhar no universo das ciências sociais e compreender que, quando nada se sabe sobre política, ser usado é uma consequência natural a que se submete o analfabeto político. E isso não exclui o “doutor”, nem tampouco o professor. Estigmatizar todo político como ladrão é de uma presunção insolente, uma vez que generalizar o que se desconhece é como atirar na multidão por ali se encontra um ladrão; ou não houvesse profissionais inescrupulosos em todas as áreas do conhecimento.
A rigor, é quando essa realidade – o alheamento da população brasileira aos fatos – colabora para que ainda haja pessoas acessíveis às fake news, especialmente à crença ao heliocentrismo (o fato de que o Sol está no centro do Sistema Solar), ao terraplanismo (que a terra é um disco plano ou circular, com o Polo Norte no centro, e não um globo esférico), e outras teorias que serviram de base à forma como o Brasil esteve (des) governado durante a Pandemia do Colvid; como o negacionismo, que, desastrosamente contribuiu para a robusta estatística de óbitos.
Fatos como esses corroboram para que atitudes catastróficas aconteçam, quando o líder de uma nação foi incapaz de se solidarizar com a dor da população, preferindo ignorá-los ruidosamente e contribuir para a banalização da maldade, da criminalidade e do senso de humanidade que não deve faltar a um gestor. O Brasil não pode esquecer tão rápido o cinismo com que o Presidente naquela ocasião reagiu ao sofrimento daqueles que morreram asfixiados pelo seu descaso e pela ingerência do seu ministro da saúde à reposição de oxigênio. Sobretudo o negacionismo em relação à vacina, que muito contribuiu para impactar a saúde pública globalmente. Estivemos à mercê de manobras políticas vergonhosas, como as notícias falsas e teorias da conspiração que associavam as vacinas ao autismo (sem qualquer embasamento científico) ou a interesses de lucro.
Em meio a toda essa desordem, tivemos inúmeros direitos obtidos defenestrados. Ainda assim, as ações desonestas praticadas por esse governo não o preocupa, pois ele acredita que a população logo esquecerá, ao apostar que a sua capacidade crítica é medíocre e o seu senso de justiça inexiste. Porém, o mais lamentável é ter que concordar.
Vida que segue.
* Vânia Azevedo é professora


