Pedro Abel vieira e Manoel Moacir Costa Macêdo
As médias globais ocultam variações na taxa de crescimento da produtividade agrícola entre os países, especialmente as políticas e organizações nacionais responsáveis pela mudança no padrão tecnológico dos processos produtivos, expressos na PTF- Produtividade Total dos Fatores.
O fortalecimento dos sistemas nacionais de pesquisa e extensão agrícolas para desenvolver e ofertar novas tecnologias agrícolas tem sido fundamental no aumento da produtividade da agropecuária. Investimentos em inovação foram importantes para sustentar as taxas de crescimento da PTF agrícola. Destaque para ocaso de sucesso brasileiro na geração de conhecimento, liderado pela EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. O mesmo foi verificado na agricultura chinesa em face dos investimentos em ciência. A agricultura russa apesar da contração na década de 1990, avançou após o ano 2000, quando cresceu a produtividade da agropecuária.
O baixo investimento em pesquisa e extensão rural, bem como a infraestrutura deficiente, continuam sendo barreiras ao crescimento da produtividade agrícola na África Subsaariana. No comparativo internacional, o Brasil apresentou um crescimento da PTF superior à média mundial, entre os principais produtores mundiais, como Estados Unidos, China, Argentina, Nova Zelândia, Austrália, Canadá e Chile. Entre 2000 a 2019, enquanto a PTF brasileira cresceu a 3,2% ao ano, o mesmo indicador mundial ficou em torno de 1,7%. Importante registrar que no Brasil, não foram contabilizadas as externalidades ambientais, sociais e econômicas. O modelo produtivista foi deslocado das restrições do meio ambiente, do emprego e dos agricultores familiares.
Merece realce na trajetória produtivista da produção agrícola brasileira, a área ocupada com agricultura, que aumentou 0,7% ao ano entre 1961 a 2020, crescendo de 3,5% para 5% da área mundial no período. Esse aumento foi mais intenso, em 1,8% ao ano, até meados da década de 1980, quando alcançou 5,2% da área agrícola mundial em 1985. Crescimento ocorrido principalmente, no bioma do Cerrado, a partir do aporte de insumos e de novos sistemas agrícolas, apartados da história e realidade desse bioma, na chamada agricultura tropical.
A expansão da fronteira agrícola tem sido contida pela inovação, como evidenciado na variação da PTF na produção agrícola brasileira. No período de 1975 a 2020, cresceu 3,3% ao ano, para um aumento 100% no valor bruto da produção. A participação da tecnologia subiu de 50% para mais de 60%. Nesse mesmo período, o fator trabalho diminuiu de 31% para menos de 20%, enquanto a participação do fator terra praticamente ficou estável em 20%. A expansão do capital na agricultura, como máquinas, fertilizantes e defensivos superou o crescimento dos demais fatores, como terra e mão de obra, donde se conclui que produção agrícola do Brasil é intensiva em inovação e menos em fatores tradicionais de produção. O modo produtivista lastreado no uso intensivo de capital.
As consequências no desemprego, na intervenção humana nos biomas e na vida dos agricultores e seus familiares não foram consideradas. A prioridade foi o aumento linear de produção, com prioridade nas commodities agrícolas para o mercado global. O aumento da produtividade garantiu a competitividade internacional da agricultura brasileira, viabilizou alimentos abundantes e baratos e reduziu o custo da mão de obra para a economia nacional. No entanto, a fome dos brasileiros e brasileiros não foi eliminada, ao contrário, está em patamares expressivos. Uma contradição entre produção e consumo de produtos agrícolas.
Evidências que exigem as reformas estruturais na distribuição de renda, para inseriras populações vulneráveis no mercado de comida e em dietas recomendadas pelas organizações de saúde e alimentação. Produzir com sustentabilidade e de forma integrada entre o meio ambiente, as pessoas e os processos produtivos.
Pedro Abel Vieira e Manoel Moacir Costa Macêdo são engenheiros agrônomos.


