Rian Santos
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Vira e mexe, o trabalho de Fabio Rogério, realizador audiovisual com notável inserção no circuito de festivais brazuca, é destacado nesta página. Além de realizador, Fabio é também um dedicado pesquisador do tema, a ponto de dialogar diretamente com figuras lendárias do meio.
Em conversa suscitada pelo levante terrorista frustrado em Brasília, o diretor Jean Claude Bernadete, uma lenda muito viva do Cinema brasileiro, distribui sopapos pouco ortodoxos a respeito do discurso articulado pela opinião pública tupiniquim. E não deixa pedra sobre pedra.
Fabio Rogerio: O senhor tem algo a falar sobre isso (o ato terrorista, sm Brasília)?
Jean Claude Bernadete: Sim. Você, talvez, vai ficar um pouco chocado com o que vou lhe dizer, mas em sã consciência, dono de todas as minhas faculdades e lucidez, eu te digo que eu não posso ser contra isso, contra essa depredação. Essa depredação é uma depredação dos lugares do poder e eu não me identifico absolutamente com esses lugares, nem com o tribunal em que os juízes não têm mandato, são eternos. Nem com o Congresso, com o qual não me identifico nem um pouco, embora possa haver um ou outro deputado… Então, a depredação desse lugar do poder construído pelo Niemeyer – um arquiteto do poder. Eu concordo e estou de acordo com isso (a depredação).
Posso não estar de acordo com a tendência política, com a ideologia que levou a isso, mas contra a destruição e a depredação dos centros do poder não sou contra.
FR: É sua veia anarquista?
JCB: Não. Eu me sinto absolutamente, sei lá, de esquerda, mas esse poder nos oprime, esse é o lugar da classe dominante e não vejo porque ficar assim transtornado porque um quadro da classe dominante foi alterado, destruído, pixado, etc.
FR: Mesmo um quadro do Di Cavalcanti?
JCB: Mesmo um quadro do Di Cavalcanti. Di Cavalcanti, quando faz um mural do teatro da Cultura Artística, quando faz, a pedido, esses trabalhos para os prédios do poder, ele é um homem do poder.
FR: Como você se define politicamente?
JCB: Eu não tenho que me definir politicamente. Tem muita coisa que eu não defino. Inclusive, não me defino a mim mesmo. Simplesmente, eu estou transmitindo uma opinião que eu não me sinto transtornado por isso. Eu não coincido com essas pessoas. Não tenho nenhuma proximidade política com essas pessoas. Agora, o que eu também defendo que é uma rebelião popular e que são tratados como vândalos e isso é um erro político da classe dominante de tratar essas pessoas como vândalos, porque são revoltosos. Eu sou contra o que eles querem impor, um regime policialesco, um regime da autoridade, um regime opressor e um regime contra minha própria cultura que eu defendo, mas eu acho que seria, talvez, possível por parte de jornalistas, analistas, etc, ter uma visão um pouco mais crítica.
Por exemplo: a tal história do Cristo. O Cristo que está no STF foi derrubado. Primeiro, precisa saber quem derrubou. Aparentemente, quem derrubou são evangélicos já que uma grande parte dessa população provavelmente é evangélica. Os evangélicos são contra as imagens, tanto imagens de duas dimensões, quer dizer plana, quanto as de três dimensões. Eles são contra, portanto, teria que ter um pouco mais de compreensão por parte dos jornalistas quanto a essa derrubada do Cristo. Por outro lado é bom lembrar que a República brasileira é leiga. Portanto, não deveria ter nenhuma imagem religiosa em prédios públicos, nem no Congresso, nem no STF, etc. Portanto, é bom tirar esse Cristo de onde ele estava.
Então, eu acho que tem uma visão muito chapada sobre esses militantes. Sim, militantes, que seria bom os analistas, pelo menos, terem uma visão um pouco mais detalhada. Isso estou inteiramente de acordo com o Lula, quando ele decreta intervenção na segurança do Distrito Federal. Quando um juiz decreta o afastamento do governador por um tempo maior. Estou de acordo com isso, mas eu acho muito superficial a maneira como essas pessoas são vistas e essas pessoas me lembram muito o que na França se chamou os coletes amarelos.
O colete amarelo na França é uma veste obrigatória dentro dos carros para ser usada quando tem um incidente na estrada e as pessoas poderem ser vistas por outros motoristas que estão chegando. E por que isso se tornou um símbolo? Se tornou um símbolo porque na estrada isso é feito para ser visto e as pessoas que os vestem não são vistas. Elas não se sentem reconhecidas pelo poder, pelas instituições, etc. E as pessoas que atacaram Brasília são pessoas, me parece, da mesma ordem. No sentido que elas são relegadas. Elas, encontraram em Bolsonaro quem lhes deu um gás, um ar para se mostrar e se manifestar. E simplesmente considerar que essas pessoas são vândalos, arruaceiros, etc, é fechar os olhos e provavelmente preparar manifestações que serão bem mais violentas.


