Vânia Azevedo
O Código Civil Brasileiro no seu artigo 14 prevê a doação voluntária e gratuita do corpo, desde que manifeste esse desejo em vida e, através de formulário padronizado, documente o seu desejo. Após o óbito caberá à família concluir o processo formalmente.
Não faz muito tempo tomei conhecimento pela imprensa, da lei brasileira e o esforço das instituições de ensino superior em adquirir cadáveres para compor o acervo dos cursos da área de saúde e laboratórios de pesquisa. A notícia me transportou à minha passagem pela Universidade Federal de Sergipe, uma época em que havia vários corpos mergulhados em recipientes apropriados, e devidamente conservados pelo formol que ardia sem dó nem piedade nas nossas narinas. O fato de haver mais de um corpo, viabilizava a divisão da turma em pequenos grupos para as aulas de Elementos de Anatomia Humana.
Pelo visto, hoje há uma carência muito grande, o que leva as instituições a se manifestarem no sentido de encontrar na população a adesão necessária para suprir essa demanda. Visto que, ainda que as novas tecnologias cumpram o seu papel no sentido de suprir a falta de corpos para o estudo anatômico, nada se compara ao estudo de anatomia quando se pode dispor da matéria humana. Experiências com recursos alternativos (manequins de plástico e peças de borracha) demonstram o quão longe estão de alcançar a riqueza de detalhes que só mesmo o corpo humano é capaz de acrescentar à aprendizagem. E quanto mais corpos o laboratório puder dispor, indiscutivelmente, melhor será o aproveitamento dessas turmas. Sobretudo, levando-se em conta que além do estudo de músculos, nervos e órgãos, há um universo a ser explorado em todas as partes do corpo humano. Posto que, entender as entrelinhas do emaranhado de inervações, especificamente no âmbito de veias e artérias que abrem caminho como se fossem estradas e trilhas a conduzir nutrientes através do sangue, nada como fazer essa visualização no corpo humano para se obter uma melhor compreensão da magnífica engenharia humana.
Porém, não vejo como evitar nesse momento de tecer uma relação com a grande resistência que ainda apresenta a população brasileira no que diz respeito à doação de órgãos. A doação de corpos esbarra em uma questão bastante complexa e de difícil assimilação, até porque trata-se de uma situação ímpar que nos leva a um questionamento: até que ponto estamos preparados para conviver com a ideia de que o corpo de alguém que amamos estará exposto e sendo manipulado diariamente por desconhecidos?
Ainda que o indivíduo manifeste esse desejo, sempre será muito difícil assimilar com naturalidade tal resolução, e colocá-la em prática. O que me faz crer tratar-se de uma tarefa um tanto complexa, acostumar-se a uma realidade que, inegavelmente, foge totalmente à cultura da nossa gente, sobretudo aos princípios cristãos – ainda que atendendo à vontade do doador. Porém, vale salientar que a decisão tomada pelo doador poderá ser revogada pelos familiares posteriormente à sua morte. Em vista disso, estabelecer conversas tratando da decisão se faz necessário no âmbito familiar, para que a decisão seja respeitada e cumprida sem problema.
Entretanto, para o êxito de uma lei desse porte ganhar adeptos, penso ser necessário um intenso trabalho de conscientização na sociedade da importância da ação. Para tanto, o início dessa campanha ocorreria na comunidade científica (no âmbito da universidade, especialmente com os alunos); o que, oportunamente possibilitaria um maior ganho de projeção fora do universo acadêmico.
Por outro lado, penso ser oportuno uma melhor orientação à comunidade estudantil da área de saúde, considerando a imaturidade e o despreparo que demonstram ao se verem em um laboratório de anatomia, quando muitas vezes têm produzido cenas extremamente lamentáveis, mostrando-se incapazes de manter uma postura ética compatível com a condição que ocupam. De maneira que, atribuir o respeito como regra básica estabelecida e observada pela instituição é imprescindível; repudiando sistematicamente atitudes depreciativas que emanam de comportamentos desrespeitosos, nem sempre coibidos. Fazê-los compreender a relevância de disponibilizar o corpo para o estudo de anatomia e pesquisas científicas, notadamente, já seria razão suficiente para uma avaliação mais generosa do contexto, repudiando energicamente expressões jocosas de caráter vulgar.
Entrementes, trata-se de uma decisão digna de louvor a doação do corpo após a morte; demonstração de grandeza incalculável que patenteia uma atitude cujo alcance é algo sem precedentes. E, por conseguinte, digna de desmedido respeito e vultoso apreço. Inegavelmente estamos falando de alguém cuja generosidade transcende as barreiras de sua existência, para fazer-se notável infinitamente. Afinal, doar o próprio corpo à ciência é continuar doando-se além vida.
Vânia Azevedo é professora.

