É o Congresso, estúpido

* Luciano Correia

Já virou um-lugar repetir um comentário feito em 1992 pela equipe de marketing da campanha de eleição de Bill Clinton à presidência dos Estados Unidos. Quando se debatiam estratégias eleitorais para um discurso do candidato, alguém lembrou de forma peremptória que nada daquilo que se discutia tinha relevância naquele momento da política norte-americana. O que importava na cabeça do eleitor, de fato, era a economia e a forma como ela poderia melhorar ou piorar a vida dele.
Aqui em terras de Pindorama, pode-se fazer o mesmo comentário em relação a um segmento da sociedade brasileira que tem se revelado, dia após dia, ato após ato, um verdadeiro inimigo do povo. A população já percebeu isso e deu uma enfática resposta no dia 21 de setembro passado, quando voltou às ruas depois de muito tempo para dizer que cansou de um congresso feito majoritariamente de bandidos, incluindo gente relacionada com o crime organizado e o narcotráfico.
A canalha que compõe hoje o Congresso Nacional compreendeu o recado e fez um recuo estratégico, em nome da salvação de sua intocável pele. Tanto que assistimos, ainda no domingo da virada, uma série de deputados fazendo publicamente um mea-culpa, mesmo que contrariados por dentro, pensando nos seus emputecidos eleitores. Mas a docilidade exibida não chegou na esquina: na noite da última quarta-feira (as patifarias sempre na madrugada!), por maioria folgada esse congresso de reputação duvidosa derrubou medidas de compensação tributária para garantir benefícios para a população. Por pirraça? Não: por dinheiro.
A principal fonte dessa compensação tributária eram as chamadas Bets, a bilionária rede de apostas eletrônicas que atuam dentro e – algumas – fora das quatro linhas, incluindo corrupção de jogadores e juízes para alterar resultados de jogos de futebol. Pra refrescar a memória, vale citar os casos de Lucas Paquetá e Bruno Henrique, flagrados em atos de corrupção para favorecer apostadores. As Bets hoje mandam e desmandam, com tanto dinheiro em caixa, praticamente sem pagar impostos. Financiam, dos grandes conglomerados de mídia aos clubes de futebol, sem deixar de irrigar campanhas desses políticos que agora as defendem no parlamento.
Quando uma pequena tentativa de arrancar um tiquinho de impostos para financiar serviços para a sociedade é submetida ao parlamento, por mínima que seja, a reação é o que se viu: o mugido grosso de uma gente desonesta que trabalha diariamente contra a população na base da mentira sistemática. Dessa vez, a mentira foi dizer que o projeto que eles derrubaram aumentava impostos para o povo. A medida tirava um tiquinho das Bets e dos bilionários bancos. Uma mentira inclusive repetida pela velha e venal mídia corporativa.
Quinze dias depois de uma lição dada nas ruas, a horda de mentirosos não só mostrou que não aprendeu nada, como voltaram sua fúria contra o país e o povo. A trama da madrugada dessa quarta mostra também o descompromisso de um congresso de costas para as funções de um parlamento, desprezando todas as pautas do interesse da sociedade para antecipar uma eleição que só vai acontecer daqui a doze meses. Uns irresponsáveis que confiam eternamente na impunidade.
Pelo conjunto da obra nefasta de uma bancada dessas, não sobram muitas alternativas aos que lutam por um país decente. Hoje, na discussão sobre medidas para resolver os problemas do país, já nem importam algumas causas que neste momento soam como paliativos diante do estrago feito por este poder apodrecido. O centro dos problemas do país está aí, nessa casa tornada espúria por deputados com modos de bandidos. Não que seja a única fonte dos problemas, mas é o principal, que deve ser combatido com igual fúria, pelo voto, nas eleições do próximo ano, varrendo de Brasília esses traidores da nação. Essa é a prioridade zero da gente de bem, independente de partidos ou tendências políticas.

* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS

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