Gabriel Damásio
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Uma tentativa de fuga ocorrida na tarde de domingo detonou uma nova rebelião no Presídio Regional Senador Leite Neto (Preslen), em Nossa Senhora da Glória (Sertão). Dois agentes penitenciários e cerca de 100 mulheres e crianças foram tomadas como reféns durante cerca de 20 horas por parte dos mais de 400 detentos do presídio. Foi o segundo incidente ocorrido na penitenciária em menos de dois meses – sendo o primeiro ocorrido em 13 de outubro deste ano e com duração igualmente superior a 20 horas.
Segundo informações da Secretaria Estadual de Justiça (Sejuc), cerca de 120 presos de um dos pavilhões do presídio, conhecido como "A Horta", avançaram em bloco para o portão principal durante o início do horário de visitas, por volta das 13h, em um movimento conhecido como "cavalo doido". A fuga foi rechaçada pelos agentes penitenciários que estavam de plantão na hora do incidente e, armados, deram vários tiros para o alto. "Eles aproveitaram o dia atípico, onde os guardas devem voltar a atenção para a presença de pessoas no interior da unidade, e valeram-se disso para tentar escapar. Os demais internos não participaram do movimento e continuaram custodiados nas demais alas", disse o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Maurício Iunes.
Alguns detentos que participaram da tentativa de fuga conseguiram entrar na área administrativa do presídio, onde pegaram algumas armas que estavam guardadas. Houve confronto e os reféns foram tomados. Dois agentes foram baleados e internados no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), em Aracaju. José Fernando Almeida Lima, ferido com um tiro em cada braço, passou por cirurgia ontem à tarde e, segundo informações não-confirmadas pelo Huse, corre o risco de perder uma das mãos. Já Tércio de Oliveira, baleado na coxa, passa bem e permanece sob observação na área de trauma.
Tensão – A situação ficou bastante tensa e policiais militares chegaram ao local para reforçar a segurança e iniciar a negociação. Às 15h, os detentos colocaram fogo na moto de um agente penitenciário e no alojamento dos guardas, aumentando ainda mais o clima de pânico. Novos disparos foram feitos da cadeia e os cabos Marcelo Vieira e Djalma Santos, do 4º BPM, também saíram feridos, mas em menor gravidade, e passaram por atendimento no Hospital Regional de Glória. Às 15h30, chegaram os primeiros reforços do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq) e do Comando de Operações Especiais (COE). Soldados do Corpo de Bombeiros também foram enviados para controlar o incêndio.
Os secretários estaduais de Justiça, Benedito Figueiredo, e de Direitos Humanos, Luiz Eduardo Oliva, chegaram a Glória por volta das 16h15 e começaram a negociar o fim da rebelião com os detentos, que apresentaram reivindicações consideradas "genéricas". Os presos reclamavam de abusos e espancamentos dos agentes, além da demora na liberação das visitas dos parentes, e pediram a demissão do diretor do Preslen, Jair Bispo. O governo negou o pedido os detentos e diz que os rebelados se referiam mais à demora no julgamento dos processos. Alguns reféns que passaram mal foram liberados para atendimento médico.
Superlotação – Também houve reclamações quanto à superlotação da penitenciária, o que foi atribuído por Benedito às reformas de outra unidade prisional do estado. "O presídio, de fato, está superlotado em decorrência das obras que estão sendo realizadas no Presídio de Tobias Barreto. Por isso, todos os presos tiveram que ser transferidos para Glória, mas esse problema será resolvido entre 90 e 120 dias, que é o prazo para conclusão da reforma", afirmou o secretário, negando, porém que foi uma rebelião organizada. "Um ponto importante é que apenas uma pequena parte dos internos tentou fugir e o restante dos presos manifestou indignação com a atitude da minoria", aponta uma nota oficial divulgada pela Sejuc.
As negociações foram suspensas no início da noite e foram retomadas na manhã do dia seguinte, com a volta de Benedito, Luiz Eduardo, Iunes e outros negociadores, como o secretário-adjunto da Segurança Pública, João Batista Júnior e o juiz corregedor do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE), Rômulo Freitas Brandão. Todos chegaram por volta das 8h30, em um helicóptero do Grupamento Tático Aéreo (GTA). Antes, por volta das 5h, mais tiros foram ouvidos de dentro do Preslen, mas nenhuma conseqüência grave aconteceu. Segundo a polícia, até um churrasco foi visto dentro do presídio, pois os rebelados também tomaram alimentos da área administrativa.
Entrega de armas – A situação se acalmou de vez com a retomada das negociações. Às 11h, os presos entregaram as armas que estavam com eles, sendo três revólveres calibre 38, duas escopetas calibre 12 e uma pistola 9 milímetros. Minutos depois, os dois agentes prisionais tomados como reféns foram liberados, junto com os familiares dos detentos. Os guardas não se feriram, mas afirmam ter sofrido ameaças e pressão psicológica enquanto estavam em poder dos presos. As tropas da PM entraram em seguida e fizeram uma grande revista em todo o Preslen, o que só terminou no final da tarde. Uma granada de efeito moral, provavelmente retirada da sala de armamentos da unidade, foi achada com os presos.
Na saída, ao fim da rebelião, o secretário Benedito Figueiredo, informou que o presídio retomou a normalidade e agradeceu o empenho e coragem dos guardas prisionais que bravamente enfrentaram os internos. Benedito reforçou que nenhuma fuga foi registrada durante a movimentação e que o incidente foi uma manifestação de apenas uma ala, correspondendo a uma minoria dos presos. A maior parte dos internos chegou a protestar contra o movimento que a eles não interessava.


