Florentino Menezes, um intelectual elitista

Menezes foi um homem branco, aristocrata, magro e grandalhão, oriundo de uma família mais do que “quatrocentona” pelo lado materno e de classe média (pai médico ligado por algum tempo ao Exército e mãe professora e proprietária de escola)

 

* Afonso Nascimento

Não escondo a satisfação que é, para mim, fazer aqui uma apresentação da biografia de Florentino Telles de Menezes (1886-1959), escrita pelo renomado historiador Ibarê Dantas (Dantas, Ibarê. Florentino Telles de Menezes. Pensamento e Ação. Aracaju: Editora Criação, 2025, 402 p.). Menezes é considerado o pioneiro da Sociologia e ocupa um lugar importante no panteão das elites intelectuais de Sergipe. Na minha opinião, foi mais conservador do que progressista, mais de direita do que liberal.

De que é composto esse novo livro de Dantas? Capítulos, fotografias de pessoas, de capas e de sumários de livros, poesias, cronologia da vida de Florentino, resumos de livros, reprodução de textos, além de citações de Menezes e outros. Trata-se de um livro com muitas fontes e fornece muitas pistas que podem servir para novos estudos. É o mais completo trabalho sobre Menezes, para o qual o maior historiador sergipano investiu alguns anos de sua vida. O que faço adiante é um diálogo seletivo com o que Dantas escreveu sobre Menezes, muito longe de abordar tantas informações contidas no seu livro. Para além disso, as afirmações são só minhas, com informações retiradas das páginas citadas do livro de Dantas, com a exceção de artigo de Luiz Antônio Barreto.

Menezes foi um homem branco, aristocrata, magro e grandalhão, oriundo de uma família mais do que “quatrocentona” pelo lado materno e de classe média (pai médico ligado por algum tempo ao Exército e mãe professora e proprietária de escola). Seus pais nasceram na década de 50 do século XIX e, por tempo considerável, viveram na rua Pacatuba, nº 76, perto da Assembleia Legislativa e do Palácio do Governo estadual, em Aracaju. De seu nascimento até 1909, Menezes foi um sujeito privilegiado, mas não rico, da sociedade sergipana. Seus progenitores foram pessoas da elite cultural de Aracaju. Tinha uma inteligência fora do comum, sendo por isso considerado “gênio”. Acho que ele se considerava alguém assim.

Intelectualmente, Menezes recebeu influência de diversas teorias e de autores europeus como Darwin, Comte, Spencer, Nietzsche, Le Bon, o às vezes reacionário Nietzsche (para quem “é preciso armar os fortes contra os fracos”, Nietzsche apud Dantas, p. 92), etc. Para o sociólogo sergipano, a história das sociedades era dividida em duas fatias. De um lado, as sociedades homogêneas, nas quais não existiam aristocracias. Seriam equivalentes às sociedades ditas “primitivas”, sem classes, sem Estado, etc. Não tinha simpatias por elas. Seriam sociedades do caos. Por outro lado, fala das sociedades heterogêneas, que teriam aristocracias que se substituíam ao longo da história – conceito que lembra as “oligarquias” de Gaetano Mosca. O penúltimo tipo de sociedade seria o da sociedade capitalista com seus intelectuais de escol. Depois dessa viria a aristocracia intelectual, que comandaria as sociedades (Dantas, p. 167).

É estranho o desprezo do sociólogo autodidata pela ideia de igualdade. Foi um autor que naturalizou a ideia de desigualdade, um defensor da desigualdade. A igualdade seria coisa para as massas. De acordo com ele, “as multidões em todos os tempos viveram com a ilusão de esperança de uma sociedade igualitária” (Dantas, p.171) ou “a ilusão de uma sociedade igualitária” (Dantas, p.174). Ou ainda: “A igualdade é um mito, a homogeneidade foi o caos primitivo.”

Coisa natural em se tratando de um seguidor do evolucionismo de Darwin e do anticristianismo de Nietzsche, Menezes fez opção pelo ateísmo. Sem rodeios, escreveu o seguinte: “Não sou espiritualista, o que equivale a dizer que não admito a possibilidade de vida revelar-se fora da matéria, e aceito o evolucionismo, com todas as suas manifestações inorgânicas, orgânicas e sociais”. (Cf. Luiz Antônio Barreto, p.150). Mas era culturalmente católico. Sua mãe era filha de padre – é bom não esquecer.

Em seus escritos, ficou prisioneiro do conceito de raça. Sua visão do mundo social passava pelas raças. Sem nenhum pejo, deixou essa pérola no seu primeiro livro: “os negros servis de natureza, sujeitaram-se ao regime da escravidão mais facilmente” (Dantas, p.62.). Dizer isso é quase falar em “escravidão consensual”. Não percebeu a contribuição de pretos e pardos para a construção de Sergipe e do Brasil, nem as suas lutas por liberdade através de rebeliões, fugas, quilombos, etc. Pensar assim era coisa comum no seu tempo. O normal era o escritor branco ser racista e pessimista quanto ao futuro de Sergipe. Em minha opinião, não dá para tomar a raça como ponto de partida para a análise da sociedade como um todo, mas foi essa ideia que os europeus venderam às suas ex-colônias. Por esse caminho, nada daria certo por aqui.

A Revolução Russa de 1917 teve um forte impacto sobre Menezes, que decidiu tornar-se socialista. Assim expressou a sua simpatia pelos bolcheviques: “eu sou partidário da Revolução, único meio de vitória que aconselho às populações europeias” (Dantas, p. 97). Tornou-se um “revolucionário”. Porém, não quis alarmar as elites políticas e proprietárias de seu estado e acrescentou: “Sergipe nunca poderá conhecer o punhal, o veneno e a bomba dinamite”. Mais tarde renegou o socialismo soviético, tornando-se um “evolucionário”, bem de acordo com o seu evolucionismo. Do seu “socialismo” serviu-se para cunhar a expressão “aristocracia intelectual socialista” (Dantas, p. 167). Pensava que no futuro as sociedades seriam governadas por intelectuais como ele. O seu socialismo era com classes, desigualdades, com Estado, etc. e se tornou uma contradição mantida no seu pensamento.

Menezes não foi um bom amigo da democracia. Enquanto jovem, foi um eleitor que pôde ter votado várias vezes. Observou como o voto não era nada secreto. Foi daí que formou uma opinião negativa sobre a democracia? Tomou partido por uma corrente muito popular entre setores progressistas brasileiros. Participou então da campanha pelo voto secreto em Sergipe, bem como da campanha pelo voto da mulher. Foi progressista, um democrata, nesse período, porém, mais tarde, jogou fora a ideia de democracia, para em lugar dela colocar a aristocracia intelectual no poder. Citando novamente Nietzsche, Menezes concorda com ele quando afirmava que “todo ideal democrático é sintoma de degeneração e enfraquecimento das raças que o seguem” (Dantas, p.79).

Menezes teve uma ascensão meteórica na sua carreira intelectual. Chegou de Salvador em Aracaju em 1909, sem diploma de Medicina (cujo curso precisou abandonar) e sem emprego. Passou dois anos pensando no que faria de sua vida a partir de então. “De repente”, publicou 13 livros de Sociologia e quase 200 artigos de jornais, fundou o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, conseguiu uma sinecura como primeiro emprego e, um pouco depois, foi criada uma cadeira de professor de Sociologia no Atheneu a ele destinada. Foi aprovado em concurso público e se tornou professor vitalício daquela instituição. Tornou-se um intelectual reconhecido na sua terra e internacionalmente.

Além de sua mente brilhante, Menezes contou com o apoio de seus parentes bem colocados socialmente e de elites políticas, jurídicas e intelectuais da sociedade agrária e rural sergipana que lhe abriram portas – embora às vezes podendo estar incomodadas com certas ideias suas. E o sociólogo evolucionista e elitista pôde desfrutar do prazer da consagração até o ano de 1940, com a sua queda, quando foi aposentado subitamente através de decreto do dia 18.06.1940, por Eronildes Carvalho, um interventor sergipano do Estado Novo. Qual foi o motivo dessa aposentadoria? Houve processo administrativo? Menezes teve direito a defender-se? Por que não recorreu à justiça?

Tratando desse assunto, Dantas citou Adriana Silva que escreveu uma dissertação sobre Menezes. Entre outras possibilidades, essa autora escreveu que “cogitava-se (…) que fosse homossexual” (Dantas, p. 191). Minha hipótese é que essa aposentadoria compulsória pode ter tido a ver com a sua orientação sexual – que é o que se fala em todos os meios intelectuais de Aracaju. Como consequência disso, pode ter caído em depressão e, mesmo assim, ainda conseguiu publicar mais de 50 artigos de jornal e mais um livro. Menezes viveu um tempo de declínio, portanto, com doenças, dinheiro curto, escárnio público, ostracismo, invisibilidade, esquecimento, desprezo e fuga de amigos e admiradores. Acho que essa aposentadoria pode ser o ponto de partida para novas pesquisas sobre Florentino Menezes.

* Afonso Nascimento, professor de Direito da UFS

 

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