Foi um menor quem atirou em professor durante aula

Gabriel Damásio e
Milton Alves Júnior
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br
miltonalvesjunior@jornaldodiase.com.br

Os dois estudantes protagonistas da briga ocorrida na noite de segunda-feira dentro da Escola Estadual José Augusto Ferraz, no Bairro Industrial (zona norte de Aracaju), na qual o professor Edilson Oliveira Silva, 54 anos, foi ferido com um tiro no abdômen, são adolescentes com 15 e 16 anos de idade. A confirmação foi feita ontem à tarde pela Secretaria da Segurança Pública (SSP), ao anunciar que o caso, enquadrado como tentativa de homicídio, será investigado pela Delegacia Especial de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), especializada em crimes cometidos por menores de idade.

Inicialmente, as primeiras informações foram apuradas pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), cuja equipe esteve na escola logo após o crime e colheu os primeiros depoimentos. A mudança de delegacia foi cogitada após a confirmação de que tanto o autor do disparo quanto o estudante que seria a possível vítima são adolescentes. O delegado Marco Passos, da Depca, adotou duas providências ao assumir o inquérito. "Já intimei a direção da escola e um estudante que foi testemunha ocular no briga entre os dois adolescentes. A partir desta quarta-feira é que poderei me posicionar melhor em relação ao caso, por enquanto é cedo para manifestar alguma opinião", explicou Passos. Durante toda a manhã, policiais civis e militares voltaram à Augusto Ferraz em busca de mais informações.

Edilson foi ferido dentro de uma sala da 1ª Fase do EJA (Educação de Jovens e Adultos), enquanto se preparava para fazer a chamada. Os estudantes, que são de classes diferentes começaram a discutir no corredor e um deles entrou na sala. O outro sacou de um revólver e disparou na direção do rival, mas acertou o professor, que tinha ido até os alunos para tentar separar a briga. Segundo informações ainda não confirmadas pela polícia, esta confusão teria sido motivada pela rivalidade entre torcidas organizadas do Club Sportivo Sergipe e Associação Desportiva Confiança, das quais os adolescentes seriam integrantes.

Os dois estudantes fugiram da escola logo após o tiro, aproveitando-se da correria que se formou entre os outros alunos. O docente foi levado imediatamente ao Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), no Capucho (zona oeste) e passou por uma cirurgia. Segundo o boletim médico, o projétil atingiu o intestino grosso, o intestino fino e a veia cava do paciente, alojando-se próximo à veia aorta (ligada ao coração). Em decorrência do tiro, a vítima perdeu aproximadamente 15 cm do intestino fino, retirados juntamente com o projétil. O professor foi transferido no fim da tarde para o Hospital São José, no Santo Antônio (zona norte) e seu quadro de saúde era considerado estável, apesar de inspirar cuidados.

Insegurança – Ainda muito abalada, a diretora da escola, Kátia Virginia dos Santos, disse ter conhecimento da melhora no quadro clínico do professor e que a direção da escola está totalmente à disposição da polícia para identificar os alunos que se envolveram na briga. "Alguns relatos já foram feitos por estudantes, mas não podemos acusar ninguém sem obter provas concretas. O que podemos afirmar é que o atirador, após cometer essa ilegalidade, saiu sem deixar rastros", afirmou. De acordo com a coordenação educacional, dois agentes de segurança atuam diariamente nos três turnos para manter a ordem. Apesar da presença dos seguranças, o suspeito conseguiu ser frio nas respectivas atitudes e saiu pela porta principal da escola sem levantar a suspeita dos seguranças.

Ontem, as aulas permaneceram suspensas por conta do abalo emocional causado a alunos e professores, além da preocupação causada aos pais dos estudantes. A Secretaria de Estado da Educação (Seed) informou na manhã de ontem que vai disponibilizar um psicólogo da Rede QualiVida para acompanhar o estado emocional dos alunos, professores e demais funcionários que trabalham no colégio. A intenção é que todos possam voltar a frequentar o local sem medo.

Afirmando nunca ter registrado uma ocorrência dessa natureza, a professora Ângela Melo, presidente do Sindicato dos Professores do Estado de Sergipe (Sintese), informou que, ao saber do episódio, se dirigiu ao local para prestar solidariedade aos educadores. "Principalmente ao professor José Augusto. O que estamos presenciando é um modelo pífio da educação pública. Além de lamentar essa vergonha, todos do Sintese estão chocados porque é mais um professor, mais uma vítima dessa insegurança", disse.

A representante do sindicato também registrou sua preocupação com outros casos de violência ocorridos em outras escolas da rede estadual – e denunciados constantemente pelos docentes. "O fato de ser uma possível rixa entre torcedores é mais uma prova que as nossas escolas estão sem segurança. São furtos a depósitos alimentícios, computadores, materiais didáticos e agora agressão com a utilização de arma de fogo contra um professor, que trabalha visando o progresso do nosso país", pontuou Ângela.

A SSP informou que a Polícia Militar debate maneiras efetivas para evitar que outras ocorrências do tipo voltem a ser registradas. Já a Seed informou, em nota, que está intensificando seus três programas de combate à violência nas escolas e estímulo à cultura da paz entre a comunidade escolar: o "Cidadania e Paz nas Escolas", o "Escolas Promotoras da Paz" e o Serviço de Aviso Legal por Violência e Exploração contra a Criança e o Adolescente (Salve).

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