Gregório José
O brasileiro pode estar com o nome sujo na praça, o CPF pendurado no Serasa, a geladeira vazia e o aluguel atrasado, mas o celular, ah, o celular… esse ninguém tira da mão dele. Nem a fome, nem o despejo, nem o corte da luz. Pode faltar tudo – menos Wi-Fi. Nove em cada dez brasileiros têm acesso à telefonia móvel, diz a Anatel. O número é bonito, enche de orgulho os discursos oficiais, rende aplausos em Brasília. Mas esconde, como sempre, um Brasil que só é moderno da cintura pra cima – do peito pra baixo, continua de cócoras na lama.
Somos o país onde se divide o pacote de dados, mas não se divide o pão. Onde a mãe deixa de pagar a conta de água, mas garante o plano de internet do filho pra ele não “ficar pra trás”. O sinal 5G chega à roça, mas a comida não. Temos fibra óptica nos grotões, mas faltam médicos, professores, saneamento. Avançamos em direção ao futuro como quem corre num estepe furado – com o celular apontando pro mundo, mas os pés afundando na miséria.
E por que isso acontece? Porque o celular virou bem de primeira necessidade. Não é mais luxo, é sobrevivência simbólica. É onde se busca trabalho (quando há), onde se acompanha o PIX do auxílio, onde se esquece um pouco da realidade com vídeos, memes, joguinhos. O celular é o novo pão e circo: alimenta pouco, distrai muito. A diferença é que, agora, o palhaço somos nós.
Tem criança em favela estudando pelo smartphone da mãe, enquanto a internet cai toda hora porque a conta venceu. Tem idoso se alfabetizando no WhatsApp, porque nunca teve escola. Tem trabalhador que pede comida pelo app, mas não tem dinheiro pra pagar o botijão de gás. Isso não é avanço. Isso é improviso. E o Brasil, mais uma vez, está se especializando em maquiar tragédia com estatística.
Claro, é louvável que o Ministério das Comunicações esteja levando sinal até o fim do mundo. Mas não se faz inclusão digital sem inclusão social. De que adianta ter cobertura total de rede, se falta cobertura de dignidade? O que adianta a antena no morro, se o povo continua no porão?
Não estamos dizendo que o celular é o vilão. Pelo contrário. Ele virou o porto seguro de um povo desassistido. Mas é preciso coragem pra dizer: o Brasil está conectando o que não alimenta, digitalizando o que não educa, modernizando o que não sustenta.
Dia desses, um ex-colega de faculdade particular de curso de Direito, que não tinha contato há 3 anos resgatou meu número. Não. Não foi para parabenizar por aniversário ou coisa do gênero. Ele leu um artigo meu no jornal e lembrou-se de mim. Entrou em contato para pedir “emprestados” cinquenta reais. R$ 50,00. Isso mesmo! Eu sei que nunca mais irei receber, mas ajudei-o naquele momento. E ele entrou em contato como? Pelo celular. Pelo WhatsApp!
E é assim amigos, se tudo der errado, você ainda pode pedir socorro no WhatsApp. Só não pode garantir que terá o que comer enquanto espera a resposta.
* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo


