Funcionário do TJSE é preso e demitido por ligação criminosa

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Um funcionário comis-sionado do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE) foi preso ontem de manhã em sua residência, no bairro Santa Maria (zona sul de Aracaju). Bruno Santos Andrade, 33 anos, que era supervisor de Atendimento Geral do Fórum Gumercindo Bessa, na Comarca de Aracaju, teve sua prisão preventiva decretada pelo próprio Judiciário e o mandado foi cumprido por agentes do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope). De acordo com a Polícia Civil, Bruno é acusado de colaboração com o foragido Adriano Santos Gonzaga, o "Mago", 28, apontado como chefe do tráfico de drogas no Santa Maria e autor de pelo menos 20 homicídios ocorridos no bairro desde o ano passado.
A investigação contra o servidor é um desdobramento da "Operação Concórdia", que as polícias Civil e Militar deflagraram em maio deste ano para prender as duas quadrilhas que disputavam o controle do tráfico na região e, por causa desta disputa, provocaram várias mortes. Na ocasião, um dos investigados morreu em um tiroteio e outros 28 foram presos. Segundo o delegado-geral da Polícia Civil, delegado Everton Santos, as suspeitas são de que alguém deu informações sobre as investigações policiais e decretos de prisão aos integrantes da quadrilha de "Mago". Essas suspeitas começaram porque o acusado não foi encontrado no dia da operação, durante as buscas da polícia, mesmo com os levantamentos prévios feitos pelos agentes da Divisão de Inteligência Policial (Dipol) sobre os locais onde o traficante poderia estar escondido.
"Ficou confirmado pela Dipol que um indivíduo teria repassado informações privilegiadas aos membros do grupo, e depois da operação ficou evidenciado que se tratava de um funcionário comissionado do Tribunal de Justiça, que supervisionava a distribuição [de processos]. Todos os processos e pedidos cautelares que eram ingressados [no Gumercindo] pelos delegados e pelas equipes de rua passavam por ele, e ele poderia ter acesso às informações. Não se sabem ainda quais informações que ele repassou ao bando, mas o que se sabe é que Adriano não foi encontrado no dia da execução da operação e até hoje ele se encontra foragido", disse Everton.
Ainda de acordo com o delegado, a colaboração de Bruno com "Mago" teria acontecido por causa da proximidade entre eles, mas não é totalmente descartada a hipótese de que a revelação de informações teria acontecido mediante pagamentos em dinheiro. "Ele é morador do Santa Maria, tem amizades com familiares do foragido, e com aquele acesso que ele possuía dentro de sua função, ele teria condições de, observando o que estava sendo pedido, repassar as informações privilegiadas da polícia para a Justiça, as quais jamais poderiam ter sido repassadas a quem era investigadas. A investigação continua sendo feita pelo Cope para saber qual vantagem ele recebeu ou se foi simplesmente por amizade. E muitas das informações que ele nos passou não condiziam com a verdade", esclareceu.
As investigações do Cope foram acompanhadas pelo TJSE, que decidiu exonerar Bruno do cargo no dia em que sua prisão preventiva foi decretada. O decreto do presidente do órgão, desembargador Luiz Mendonça, foi publicado na edição de ontem do Diário da Justiça. Bruno Andrade, que trabalhava há 10 anos no Tribunal, permanece preso no Cope e foi indiciado pelo crime de associação criminosa, podendo ser condenado a até quatro anos de prisão.

Buscas continuam – O delegado-geral informou também que a descoberta sobre o servidor do TJSE não mudou os planos da polícia para recapturar Adriano "Mago" e que as investigações para localizá-lo continuam. Considerado de altíssima periculosidade, ele tem pelo menos quatro mandados de prisão em aberto por homicídio e tráfico. Chegou a ser preso em 29 de outubro do ano passado, mas, dias depois, em 10 de novembro, fugiu da carceragem do Cope, no Capucho (zona oeste), junto com outros oito detentos. Em 21 de julho deste ano, "Mago" escapou de um cerco na rua A-7, onde trocou tiros com agentes do Cope e soldados do Comando de Operações Especiais (COE). Na ocasião, um homem que o acompanhava foi preso.
De acordo com as investigações da "Operação Concórdia", Adriano comandava um grupo baseado no Conjunto Valadares, que enfrentava os integrantes da gangue baseada no Conjunto Padre Pedro e liderada por Wellingthon Antônio da Silva, o ‘Pelé’, preso desde dezembro de 2012. A rivalidade entre as quadrilhas é apontada como motivo de mais de 50 crimes praticados no Santa Maria, incluindo assaltos à mão armada, roubos de carros e assassinatos. Todos permanecem sob investigação e, além de "Mago", outros quatro investigados da "Concórdia" permanecem igualmente foragidos.

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