* Maria Tereza Andrade
Nas análises sobre o recente processo eleitoral sente-se falta de um olhar mais atento (ou menos preconceituoso, talvez!) sobre a vitória e a liderança de João Daniel (PT). Eleito deputado federal numa candidatura construída pelos movimentos sociais organizados, e segmentos mais progressistas e de esquerda, João Daniel confirmou a representatividade desses movimentos, especialmente o MST, tornando-se o único deputado federal de Sergipe do Partido dos Trabalhadores.
João Daniel superou nomes do próprio partido, como o do deputado federal Márcio Macêdo e dos vereadores de Aracaju, Iran Barbosa e Dr. Emerson, e nomes da coligação dados como eleitos nas pesquisas de intenção de votos, como o do ex-deputado federal Bosco Costa (PROS).
Cai por terra, mais uma vez, o velho discurso de que os movimentos sociais, particularmente o MST, podem até ter força política, mas não "densidade eleitoral". Aliás, vale lembrar, que esse fato ocorre desde a eleição passada quando João Daniel ganhou como o deputado estadual mais votado do PT. Foi a primeira incursão de João Daniel na esfera eleitoral, naquele momento uma candidatura mais fechada no MST, e logo de primeira saiu vitorioso. Nesta eleição, ampliando-se as forças populares, candidatou-se a deputado federal, e de novo conquistou a vitória.
Duas candidaturas, duas vitórias e apenas algumas poucas linhas, citações tímidas sobre uma trajetória que merece, sim, destaque. Fala-se de alguns outros, como a "consolidação da liderança de Pastor Heleno", principalmente no Sertão. Só lembrando: em Canindé do São Francisco, do prefeito Pastor Heleno , que por sinal ganhou a Prefeitura com o apoio do MST, João Daniel ficou a poucos 57 votos do candidato dele, Pastor Jony. Na vizinha Poço Redondo, onde o prefeito é do MST, João Daniel foi o primeiro, com 3.113 votos, exatos 2.021 votos à frente de Pastor Jony, o quinto no município. Alguns indícios de que a tal consolidação da liderança de Pastor Heleno no Sertão não está tão consolidada assim.
Tem mais: em todos os cantos do Estado, João Daniel teve votos. Melhor dizendo: foi bem votado, ficando, em média, entre os quatro primeiros candidatos nos 75 municípios sergipanos, o que mostra uma liderança popular que cresce e se consolida em todo o Sergipe. Enquanto novas lideranças de velhos caciques se desgastam, como o caso do deputado federal Valadares Filho (PSB), com uma perda recente – a prefeitura de Aracaju-, e uma reeleição a deputado federal com votação abaixo do esperado, algo novo, de fato, pode estar surgindo.
Esse processo vale, no mínimo, uma reflexão interna do Partido dos Trabalhadores. Com a profunda lacuna deixada com a partida prematura do governador Marcelo Déda, o PT em Sergipe precisa se rearticular e se posicionar como um partido grande, como o é, de força política e eleitoral, com uma história de luta e de grandes lutadores. Um partido protagonista das mudanças sociais no Estado. A consolidação eleitoral de Rogério Carvalho e a vitória popular de João Daniel mostram isso. O povo de Sergipe merece um PT combativo. Estão esperando o quê?
* Maria Tereza Andrade é jornalista


