Milton Alves Júnior
miltonalvesjunior@jornaldodiase.com.br
Foi na cidade de Exu, divisa entre Pernambuco e Ceará, que há 100 anos nascia um mito nordestino. Expandindo os valores socioculturais do seu povo através de pensamentos traduzidos em canções, o ‘Rei do Baião’, Luiz Gonzaga Nascimento, conseguiu romper a barreira do preconceito e mostrar para o mundo que por trás de um estereótipo repleto de sofrimento, possui uma população rica em cultura e de espírito batalhador. Filho de Ana Batista de Jesus e Januário José dos Santos, ‘Seu Lua’, como era bastante conhecido, no ano de 1933 deixou sua terra natal com o objetivo de levar a mensagem do nordestino Brasil afora.
Aos poucos o povo brasileiro foi gostando do ritmo apresentado por Luiz Gonzaga e o convidando a participar de festivais de Música Popular Brasileira (MPB). Sempre em companhia da sua sanfona de 120 baixos, o xaxado, xote e baião que sempre estiveram em seu repertório foram formando canções épicas que até hoje estão entre as dez mais executadas durante os festejos juninos. Para o forrozeiro sergipano Rogério, obras como ‘Asa Branca’, ‘Xote das Meninas’ e ‘Pagode Russo’ são músicas necessárias para saudar as noites de São João.
"Estamos passando por um momento especial em que comemoramos o centenário daquele que marcou pra sempre a vida do sertanejo. A cada apresentação que faço essas músicas já conhecidas por todos não saem do repertório justamente porque ao cantá-las, estamos homenageando um mestre muito vivo no nosso dia-a-dia. Não sei o que seria do forró sem as autorias do Luiz Gonzaga", declarou Rogério.
Assim que deixou o sertão pernambucano com destino a Fortaleza, acabou servindo o Exército e sendo o corneteiro da corporação. Naquela época, a única certeza que Luiz Gonzaga tinha era de que um dia iria voltar para sua terra natal, Exu.
Sempre alegre e de bem com a vida, uma das maiores satisfações do centenário Lua era poder repassar o seu dom artístico para jovens promissores que admiravam a sua agilidade diante da sanfona. Entre esses fãs, estavam: Dominguinhos, Raimundo Fagner e Oswaldinho.
Em sua última passagem por Aracaju, Dominguinhos foi questionado sobre a importância de Luiz Gonzaga para o nordeste brasileiro. Sem poupar elogios, ele disse: "Foi a partir do espírito futurista dele que passamos a ter voz representativa no país. Além de ser um ícone, ele sempre será aquele que melhor pode representar os nove estados nordestinos".
Homenagem – Em gratidão ao trabalho realizado pelo Rei do Baião, a última edição do Fórum do Forró, promovido pela Prefeitura de Aracaju, reuniu dezenas de artistas de renome nacional para homenagear Luiz Gonzaga. Durante dois dias de festividade, artistas como Genival Lacerda, Alcymar Monteiro, Trio Nordestino, Targino Gondim e Erivaldo de Carira compareceram ao evento e participaram de debates a respeito do rumo da música mais tradicional do Nordeste, o forró.
Constantemente realizando encontros culturais, o Gonzagão, localizado no conjunto Augusto Franco, é símbolo do carinho que o povo sergipano possui pelo velho Lua. Porém, sem nenhuma programação prevista para o dia de hoje, o esquecimento, ou falta de interesse, preocupa os artistas sergipanos. Para Antônia Amorosa, não festejar o centenário de Luiz Gonzaga é como se o povo estivesse dando as costas para um passado recente. "Infelizmente tem coisas que só acontecem em Aracaju. Uma data tão significativa como essa simplesmente não haverá uma festa no tamanho da importância que o Rei do Baião tem para o nordestino. Se estão esquecendo do Gonzagão, imagine o que falar dos artistas sergipanos", lamentou.
Carreira – Após uma apresentação especial concedida à TV Globo, realizada em maio de 1984, Luiz Gonzaga anunciou que estaria encerrando o seu ciclo de apresentações e voltando para Exu. Talvez, por muito tempo ele representou a única alegria, a única esperança do povo nordestino cansado de tanto sofrimento nos longos e amargos períodos da seca. Como sempre foi um cabra ‘Danado de Bom’, ele bastante emocionado anunciou:
"Queria aproveitar a audiência e oportunidade que a TV Globo me concedeu para dizer que termino hoje a minha profissão, a minha carreira. Certamente vocês foram pegos de surpresa porque preferi fugir daquele sistema de dar aquela festa de despedida. Então, eu vou voltar pro meu pé-de-serra, vou pro meu Exu e vou viver ao lado da minha mulher que me espera há 34 anos, onde certa vez eu cantei assim: ‘Lá no meu pé-de-serra, deixei ficar meu coração, ai que saudade eu tenho, eu vou voltar pro meu sertão", concluiu.
Conforme prometido, Luiz Gonzaga Nascimento de fato deixou a maratona de apresentações e voltou para Pernambuco. Levando a vida que desejava, no dia 21 de junho de 1989 foi internado em Recife, no Hospital Santa Joana, e no dia 2 de agosto faleceu.
Em homenagem ao centenário, diversos eventos culturais estão sendo realizados no Brasil desde a última segunda-feira, 10, principalmente em Exu. Na capital sergipana, com exceção do tradicional bar e restaurante Cariri, não foi divulgada nenhuma programação especial para hoje.
Já no próximo sábado, 15, a partir das 20h, acontecerá no espaço do Balaio Cultural, na Orla de Atalaia, a final do Festival de Novas Composições de Forró, que acontece em homenagem ao Dia Nacional do Forró e centenário do Rei do Baião. Este evento é realizado pelo Governo de Sergipe, através da Secretaria de Estado da Cultura (Secult).


