Gabriel Damásio
A Polícia Civil confirmou ontem que Juciara Soa res dos Santos, 38 anos, confessou a morte das duas crianças encontradas em uma lagoa no bairro Santa Maria (zona sul de Aracaju), no dia 8 de novembro. Ela era a mãe das vítimas e foi presa na quinta-feira passada junto com o atual companheiro dela, Luciano dos Santos Oliveira, 35. Os dois tiveram as prisões temporárias decretadas por 30 dias, após a apuração de algumas contradições nos depoimentos dos suspeitos. Segundo a polícia, o crime teria acontecido na madrugada da quarta-feira, 6 de novembro, e tem relação com maus tratos sofridos pelas crianças, que já eram apurados pelos conselheiros tutelares da região.
Segundo o delegado Mário de Carvalho Leony, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Juciara admitiu que os filhos, Mikael Allan Santos da Cunha, seis anos, e Sara Yasmin dos Santos Gomes, 10, foram agredidos com golpes de um instrumento contundente – ainda não identificado pela perícia – e tiveram seus corpos jogados na Lagoa do Areal. Ela atribuiu a autoria do crime ao companheiro, Luciano, que nega participação no crime. "Juciara findou por admitir que, bem cedo, quando o dia estava amanhecendo, eles foram até à lagoa. Ela alega que sentou num barranco e viu quando ele desceu com as crianças e ainda ouviu elas gritarem por ela. E depois ouviu o barulho dos corpos jogados na lagoa", disse Leony. Ainda conforme o delegado, várias contradições apontaram para o envolvimento do casal, a começar pelos resultados de laudos preliminares do Instituto Médico Legal (IML), mostrando que os pulmões das vítimas estavam secos e descartando a possibilidade de afogamento. Outro detalhe foi a demora de Juciara e Luciano em comunicar o suposto sumiço dos filhos. "Chamou a atenção que, enquanto as crianças estavam ‘desaparecidas’, eles não buscaram informações, nem pediram ajuda aos vizinhos mais próximos e até mesmo aos familiares, que se surpreenderam quando os corpos foram encontrados, já no dia 8. Foram diversas as contradições em relação às versões da mãe e do padrasto", pontua o delegado.
As investigações, que tiveram informações prestadas por vizinhos e assistentes sociais, confirmaram ainda uma acusação que já era feita por parentes biológicos de Sara e Mikael: ambos eram vítimas de maus-tratos, abusos e agressões por parte dos acusados, que chegavam a obrigar as crianças a irem pedir dinheiro nas ruas. A mãe, e o padrasto, segundo a polícia, eram usuários de drogas e envolvidos diretamente em crimes relacionados ao tráfico. Luciano chegou a ficar preso durante 10 anos, por crimes de tráfico e roubo. Mário Leony conclui que esta combinação, que inclui uma advertência do Conselho Tutelar por conta dessas denúncias, indica que Juciara pode ter tido a intenção de "se livrar" dos próprios filhos, o que seria a real motivação das mortes.
"Já haviam denúncias anônimas contra ela ao Conselho Tutelar, sobre esses maus tratos. A criança [Sara] fugia constantemente de casa e não queria voltar para casa, por conta desse histórico de abusos. Por conta disso, as crianças teriam se tornado ‘um estorvo’ para esse casal, porque ela não queria compromisso com essas crianças. Há relatos de que ela costumava deixar as crianças sozinhas e trancadas dentro de casa, ou elas eram vistas transitando nas ruas do bairro. E Juciara era cobrada por isso. Depois que o Luciano foi posto em liberdade condicional, essas crianças teriam se tornado um obstáculo para que eles pudessem viver a sua vida de ilicitudes", avalia o delegado.
Luciano e Juciara estão detidos respectivamente na 2ª DM (Getúlio Vargas) e na 4ª DM (Augusto Franco), onde aguardam novas decisões da Justiça. Eles podem ser indiciados por dois homicídios dolosos e ter suas prisões convertidas em preventiva. No entanto, o delegado Leony afirma que isso depende de outras diligências, laudos e depoimentos que ainda precisam ser feitos, incluindo um novo interrogatório do padrasto.


