Mulher denuncia ex-marido evangélico por agressão

Gabriel Damásio

Os crimes de violência doméstica continuam despertando a indignação da sociedade e aumentando ainda mais as denúncias de mulheres que são agredidas por seus parentes ou parceiros. Um dos casos mais recentes que estão sob investigação do Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV) da Polícia Civil é a agressão sofrida por uma manicure de 33 anos que teve o braço quebrado pelo então companheiro, um homem de 58 anos, sem profissão definida, que atua como coordenador da área juvenil de uma igreja evangélica na zona sul da capital. Por questões de segurança da vítima, os nomes serão omitidos nesta reportagem.

Segundo o relato da manicure, a agressão aconteceu na noite do dia 28 de fevereiro deste ano, quando ela chegou em sua casa, na Atalaia (zona sul), e descobriu que o convivente tinha saído sem avisá-la. Ao encontrá-lo em uma festa de aniversário, os dois começaram a discutir e o acusado passou a dirigir-lhe vários palavrões e outras ofensas. A vítima então rebateu uma das ofensas, o que provocou uma reação violenta do acusado. "Ele me xingava muito, e eu perdi a cabeça, respondi dizendo que era um ‘peste ruim’. Quando eu falei isso, ele voou em cima de mim, torceu meu braço, me pegou pela goela (sic) e me jogou contra a parede. Saí batendo nas coisas, até quando caí em cima de uma pia de mármore", contou ela.

A manicure acrescenta que, depois de jogá-la, o ex-companheiro pegou alguns pertences dele e fugiu de casa, sem prestar nenhum socorro. A vítima foi socorrida por vizinhos que ouviram os gritos da vítima e levaram-na à Unidade de Pronto Atendimento Nestor Piva, no 18 do Forte (zona norte). Lá, constatou-se que houve fratura em ossos do braço direito, que foi engessado, além de escoriações no pescoço e no rosto. Ao receber alta no dia seguinte, a mulher procurou a polícia, formalizou a queixa e foi encaminhada ao Instituto Médico-Legal (IML), onde fez um exame de corpo delito.

O casal morava junto há cinco anos, apesar da união não ser formalizada. Após a agressão, o relacionamento terminou, ele não voltou mais para casa e ambos nunca mais se encontraram. A mulher afirma que esta foi a primeira agressão física sofrida em todo este tempo, mas já foi vítima de agressões verbais e de constrangimento, pois chegou a ser abandonada em rodovias pelo ex-namorado. "Ele sempre me ofendia. Reclamava porque não fazia compras, tinha que pagar as contas e dividir as despesas de casa, das viagens. Se eu não concordava, ele me jogava na BR ou na Linha Verde, de madrugada, e tinha que me virar pra voltar pra Aracaju. ele já me largou na estrada mais de 10 vezes", acusa.

Perguntada sobre o motivo da denúncia ou da separação só acontecer agora, a ex-esposa disse que acreditava em uma mudança de comportamento no futuro, motivada pelas atividades do acusado na igreja. "Eu estava cega, pela esperança que eu tinha de ele de repente mudar a forma dele agir comigo, achava que o fato de ele ser membro da congregação iria fazer com que fosse melhor, mais humano e mais bondoso. E eu ia levando em oração, tendo paciência", justifica a manicure, ao criticar o comportamento machista e violento do ex-esposo. "Ele é um demônio, não é de Deus. Não está fazendo o seu papel, está sendo um mau exemplo dentro da igreja, uma má influência pelos jovens. Decidi denunciar porque é muito injusto ele ser coordenador de jovens da igreja e ser violento com a mulher e com os outros", desabafa a manicure.

O homem de 58 anos foi afastado de suas funções na igreja evangélica depois do episódio. Ele tem negado publicamente as agressões, afirmando que a denúncia de agressão é falsa e está sendo propagada pela ex-mulher com o objetivo de difamá-lo. Um inquérito policial foi instaurado e o coordenador deve ser ouvido formalmente pelo DAGV ainda nesta semana.

Outros casos – As denúncias e processos por crimes de violência doméstica aumentaram nos últimos dois anos em Sergipe. Segundo dados do Tribunal de Justiça (TJSE) e da Secretaria da Segurança Pública (SSP), 2.860 casos foram registrados em 2014, sendo 1.185 de lesão corporal. Em 2013, foram 3.123 crimes, sendo 1.329 de lesão corporal. Os outros casos envolvem episódios de cárcere privado e violência doméstica psicológica, moral, sexual e patrimonial. Boa parte dos agressores já foi julgada e condenada a cumprir medidas protetivas previstas pela Lei Maria da Penha. Entre elas, a realização de um tratamento psicológico obrigatório para evitar a reincidência nestes crimes.

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