Nelson Rodrigues vive e seus fantasmas estão aí

* Rômulo Rodrigues

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O negócio futebol está em plena evidência com a realização da primeira Copa do Mundo de clubes de futebol, classificados por critérios da FIFA e sua bolsa de valores, como não poderia deixar de ser, a realização está sendo no centro do império capitalista que mesmo decadente, ainda é a maior vitrine para definir de vez este esporte como uma atividade puramente adaptado ao modelo por onde circulam cifras estratosféricas que, em tempos de ajuste fiscal como critério de sobrevivência, ninguém ousa questionar alíquotas sobre as transações.
O certo que todo o circo que comanda o espetáculo, idiotas, é o da economia bem definido nas vultosas premiações com regras definidas nas divisões sociais de trabalho com preços diferenciados em três camadas sociais; europeus, sul-americanos e asiáticos e africanos, como rezam os mandamentos de Wall Street.
E, como a regra geral é tratar, como desigual os desiguais, o capítulo a ser destacado é o futebol do Brasil que com cinco títulos mundiais figura na segunda categoria.
E é aqui que entram observações do inesquecível Nelson Rodrigues com sua visão aguçada o complexo de vira lata e a pátria de chuteiras a partir das derrotas de seleção brasileira nas copas do mundo de 1950 e 1954, quando nos preparativos para a copa da Suécia, alertou que os brasileiros tinham uma tendência de se sentirem inferiores em relação às seleções do velho mundo: ” tudo indica que o Flamengo teve uma recaída”.
Mas, foi na copa do mundo de 1958 que o mesmo jornalista e escritor disparou um gatilho mental ao ver a imensa alegria do povo ante a magnitude das vitórias por goleadas da seleção sobre França e Suécia, incorporando-as como brotar de sua autoestima, quando cunhou a expressão: “pátria de chuteiras”.
De fato, o Brasil já se estabelecera como fonte de inovação tática ao sair do primitivo esquema “WM” para o 4-2-4 em 1956 e dando mais um passo à frente com o 4-3-3 em 1962 levando pânico ao mundo que respondeu transformando tudo em imensa cadeia produtiva que nivelasse todos como torcedores, eliminando os antagonismos de classes.
Entretanto, a expressão foi usurpada pela ditadura militar para formar uma forte conexão entre a seleção e uma pretensa unidade nacional acima dos conflitos sociais e usando a grande euforia da torcida com a seleção de 1970 e seus 90 milhões em ação.
Observa-se que todas as distorções daquela época e aprofundadas hoje não são culpa de Nelson Rodrigues e sim fruto do desenvolvimento das relações capitalistas nas últimas décadas e que marcam profundamente a crise estrutural que enfraquece o esporte bretão por estas terras.
Quem fizer um esforço no sentido de compreender as mutações vai chegar a uma conclusão fácil de digerir; daquele estágio de desenvolvimento das relações comerciais até aqui, houve uma mudança significativa no padrão das relações de compra e venda.
No início do que parecia a superação a do complexo de vira lata, o Brasil exportava jogadores feitos e consagrados para o continente europeu onde foram responsáveis por conquista inéditas dos novos clubes, mudando conceitos ultrapassados.
Passado o período eles impuseram paulatinamente o que se vê no momento; a compra do jogador do futuro transformado em commodities que sai daqui como matéria prima e vai se lapidado na Europa e encher as burras dos negociadores de talentos que descaracterizados não servem mais às nossas seleções e aí vem a narrativa de que a salvação será a SAF.
Voltando ao momento; o Fluminense Futebol Clube, maior paixão de Nelson Rodrigues segue em frente cometendo o pecado de ser exportador de matéria prima e ainda; não aderente ao cadafalso ante a onda mortal de entregar o patrimônio e os corações apaixonados aos mercenários que alimentam as vozes bem pagas das rodas esportivas televisivas.
O Flu chegou desacreditado pelos agourentos analistas globais que antes do primeiro jogo iniciar já davam a vitória para um gigante europeu.
Nas eliminações do Manchester e Internazionale, faltou pouco para pedirem impeachment das arbitragens que permitiram os desrespeitos à realeza europeia.
E o que tem o espírito de Nelson perante tais fatalidades? Tem o surgimento quase imperceptível de seu fantasma responsável por tudo de ruim que acontecesse ao Fluminense, o Sobrenatural de Almeida ao confundir as camisas ter agido contra os gringos em dois momentos cruciais da partida que poderiam nos levar ao sofrimento extremo.
Mas Nelson já tinha alertado que se o Fluminense fosse jogar no céu, ele morreria só para ver o tricolor jogar. Cumpriu a promessa, ajudando ao seu modo.

 

* Rômulo Rodrigues, sindicalista aposentado, é militante político

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