O momento da disputa política exige saber o foco

* Rômulo Rodrigues

O Brasil vive o momento da mais acirrada disputa desde a queda da ditadura militar durante 21 anos, com prisões arbitrárias, torturas, mortes e sumiços dos cadáveres de jovens e adultos, mulheres e homens que lutavam pelo direito de existir e ter liberdade de se organizar, obter conhecimentos e sobretudo; pela democracia.
Partindo do princípio hegeliano de que o indivíduo é aquilo que ele faz; após pular a etapa de ser pátria de chuteiras as brasileiras e os brasileiros precisam com urgência se livrar do complexo de vira lata e para tal a saída deve ser a de saber ler, interpretar o que leu e saber de onde veio e a que classe social pertence.
Seguindo na mesma estrada é preciso entender que a informação leva à ação e que a desinformação leva à apatia, ao comodismo, a dizer que o Brasil não tem mais jeito e por aí vai até que milhões de seres individuais encontrem alguém como ele e dê o crédito de ser seu mito.
Provocar o debate que leve a uma troca de conhecimento por divergências colocadas com urbanidade no tabuleiro do xadrez cotidiano e fazer germinar a semente da política, acendendo luz em cérebro onde reinam trevas e o diálogo cumpra o papel de levar conhecimento que provoque ação, é o mais certo.
O período da copa do mundo apresentou-se como oportuno para divulgar coisas e fatos que formataram o pensamento de quem só enxergava o toque da chuteira na bola, que rolava nos gramados dos países sedes.
A grande imprensa subordinada ao patrocínio das grandes marcas omitiu informações históricas que poderiam despertar interesses nos atentos telespectadores como: que o rei Leopoldo II matou 10 milhões de congoleses, cuja seleção a cada vez que entrava em campo para jogar, bradava para o mundo saber que ali estava presente o libertador da pátria Patrice Lumumba, assassinado e esquartejado com todas as partes do seu cadáver diluído em uma solução de Ácido Sulfúrico para que nunca mais aparecesse outro ser tão grandioso à sua semelhança e germinasse um sucessor; numa aliança macabra entre a Bélgica e os EUA, cujas seleções disputavam a competição.
Não noticiou que Winston Churchill, líder inglês cuja seleção está entre as 4 finalistas mandou assassinar 3 milhões de indianos; que os britânicos transportaram 3,1 milhões de africanos no período do comércio escravagista e em vez disso deixaram milhões informados que o rei Henrique III tinha várias mulheres no seu harém.
Vida que segue, depois da retirada de cena dos truculentos anos de ditadura eis que, para os algozes poderem dizer: ok, vocês venceram, aceitem nossas rendições com um suave golpe na epopeia da campanha das diretas-já e agora chegou a hora de ver, crer e entender que sem a real interpretação do texto que lhe colocou diante dos olhos, talvez tenha perdido tempo.
E foi então que a história escrita pelos vencedores glorifica a astúcia de Tancredo Neves governador de Minas Gerais, estado no qual houve repressão ao comício das Diretas-já, sendo glorificado como grande mentor da conciliação nacional, premiado como presidente da República, na Nova República para substituir a tática da repressão pela da concessão e a história quem vivenciou, conhece.
O passo seguinte ao governo da conciliação, para a era do pacto entre as facções da burguesia que aceitou o Plano Real que comprimiu os salários da classe trabalhadora em 275% seguiram-se nove eleições presidenciais das quais a aliança liderada pelo Partido dos Trabalhadores venceu cinco, com respeito absoluto às regras democráticas, onde deve ser ressaltado que a vitória de Lula sobre Bolsonaro na eleição de 2022 não foi tão somente uma vitória eleitoral como foram as de Collor sobre Lula em 1989; as de FHC sobre Lula em 1994 e 1998; as de Lula sobre Serra e Alckmin em 2002 e 2006 e as de Dilma sobre Serra e Aécio em 2010 e 2014.
Em 2018 surgiu muito forte o fenômeno do antipetismo e a vitória de Jair Bolsonaro sobre Fernando Haddad foi surpreendente, mas, no diferencial de votos do 1º para o 2º turno Haddad venceu de 66,6% a 33,3% no geral do Brasil, no que veio se refletir em 2022 com algo bem profundo; com a vitória de uma nação frente uma experiente potência, na mais difícil das batalhas, na chamada guerra híbrida não foram disparados tiros, sendo a vitória das instituições da sociedade civil, que fez o Fascismo sair do armário.
Diferente dos embates anteriores, operações localizadas seguindo uma mesma lógica, foram flagradas com as milícias infiltradas, na PRF, fazendo barreiras de contenção no dia do 2º turno para impedir acesso de eleitores aos locais de votação onde Lula obteve maioria no 1º turno. Na sequência vieram ações para tentar impedir a diplomação da chapa majoritária vitoriosa com ameaças concretas de assassinatos de Lula, Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes e o mais insano, os atos terroristas de 8 de janeiro de 2023, antes da posse do novo congresso eleito.
O foco, até 4 de outubro, deve ser lutar com todas as armas em defesa da soberania e da democracia para derrotar os que defendem a entrega do país, pela subalternidade já declarada, porque faltando menos de 100 zero a diferença entre aprovação e desaprovação, com o possível candidato da extrema direita em queda e a aprovação do governo lula em alta.

* Rômulo Rodrigues, sindicalista aposentado, é militante político

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