Fábio Alessandro Rolemberg Silva
Nascemos em famílias pobres, somos de cor escura, ou mesmo clara, passamos por várias dificuldades. A falta de recursos nos leva a ter uma condição de vida que nos dá sensação de escassez, de lacuna, de falta. A escassez da alimentação com nutrientes capazes de suprir a confiança, a auto estima, a dignidade. A lacuna do carinho, da ausência, do acolhimento provocado pela falta de estrutura familiar. Sentimos a falta do que para todo ser humano devia ser normal, um abrigo, uma cama, um canto para nos dar a sensação de espaço. E aí crescemos, e vamos formando a nossa personalidade. Chegamos na fase escolar, e ir pra escola n é uma questão de escolha, e sim de oportunidade, pois pra ir pra escola é preciso do livro, do fardamento, do transporte, do lanche, de ter alguém pra acordar, arrumar, abastecer, orientar, pegar na mão e levar, de se ter a escola. Para muitos ter esses recursos é uma questão de sorte. Sem essa estrutura acabamos desistindo, é como ir num rio na direção contrária da água. É fatal, nos condenamos à subserviência, ao escravismo disfarçado, onde a falta nos leva a aceitar qualquer condição de sobrevivência. Como se fosse um favor, um posto de trabalho dado é questão de dependência, é passível de todos tipos de assédios. Temos que suportar e nos adaptar a isso. Na rua, frente a “sociedade” somos vistos diferentes, pelas nossas roupas, pelo nosso cabelo, pelo nosso transporte, pelas marcas que carregamos da nossa vivência. A única estrutura do governo que foi criada e que usufruímos é a da polícia, que tem como objetivo constitucional defender a sociedade, mas que funciona por preservar a sociedade de nós. Somos abordados de forma preconceituosa, criminosa, como ser pobre e preto fosse um defeito, somos tratados como bandidos, mesmo nos identificando como trabalhador. Mas, pra eles não é suficiente. E assim vamos vivendo, marginalizados, excluídos, sem direito, sem opção, apanhando na cara, tomando chutes. Sendo seres inferiores. Que triste isso.
Fábio Alessandro Rolemberg Silva, professor e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe. Doutor em Física pela Universidade Federal de Sergipe, com experiência na área de Física.

