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O EX-VOTO


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Publicado em 22 de fevereiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Thiago Fragata

“Preciso pagar minha promessa; a procissão do Senhor dos Passos é próximo sábado!” Desabafou José Eleotério, popular Neneco, parado a porta do quintal, olhando as galinhas ciscando. Por um tempo ficou ali na manhã ensolarada da segunda-feira com um misto de culpa alfinetando a consciência como se esta fosse um boneco de vodu. Da reflexão concluiu que a derrota do Juventus, no campeonato, – incluindo aquela bola que não entrou -, teria sido obra do santo. O mesmo que curou-lhe a perna bichada mas que assim quitava a dívida pois não recebera seu merecido ex-voto.
Lá se iam dois anos da graça alcançada. Ali, imóvel, rememorava tudo: a contusão numa pelada domingueira, as dores intensas, o desengano dos médicos e, por último, o pedido diante da imagem no Convento do Carmo, em São Cristóvão. Não sabia fazer outra coisa na vida não fosse jogar futebol. E, se aqueles ex-votos representavam os milagres operados pelo santo, conforme disseram, rogou fosse atendida a súplica, deixou a igreja prometendo uma perna esculpida na madeira.
Ano passado a sua perna havia saído do estado crítico, os médicos ficaram surpresos com os progressos. Por displicência, irresponsabilidade mesmo, deixou passar o evento religioso em brancas nuvens, como se nada devesse. Não esboçou nenhuma culpa, apostava que o milagre não poderia ser desfeito nem mesmo por vindita do santo.
A grande romaria ocorreria no próximo fim de semana. Nova oportunidade de saldar o débito com o Senhor dos Passos e descarregar da consciência a promessa afinal alcançara a graça; e se o corpo estava sanado a culpa perturbava-lhe o juízo. Fato: não tinha dinheiro para procurar um escultor talentoso como Nivaldo Oliveira, o mais requisitado quando o assunto era ex-voto em madeira. Seus trabalhos artísticos de caráter votivo, a exemplo de uma perna esculpida para um médico famoso aracajuano, pareciam ganhar movimento tamanha a perfeição alcançada. Outro dia um guia turístico que fica na Praça São Francisco disse que viu a tal perna andar!
Pestanejou dias em busca de solução: uma perna esculpida. A solução mais absurda ou plausível, quer dizer, qualquer uma, seria trivial para o santo já para o promesseiro… Exclamou amargurado “o que fazer meu Deus, não sou artista nem tenho dinheiro?” Recolheu-se perturbado ao final de cada dia que o conduzia a cidade histórico e o santo milagreiro que agora aparecia como um poderoso juiz.
Chegou então a manhã do sábado, o grande dia. Estava ali, na porta do quintal a observar as galinhas cavucando a terra. Daquele ponto, imóvel, chegou a rememorar que nada avançara desde o início da semana, era como se não tivesse arredado o pé. Estava empacado como empacado ficou a vida desde a benção do santo. Tudo porque recebera de volta sua perna de jogador porém devia um agradecimento formalizado com ex-voto. Ao cair da noite, olhando o cercado do galinheiro, vislumbrou uma possibilidade. Tirou a mais robusta estaca do cercado. Calçou, atou o cadarço. Pronto, criara com desespero, arte e insight a sua perna com um detalhe: a chuteira. Não havia melhor marca da sua identidade que o pisante, resumiu. Se ofertou ao santo aquele ex-voto? Sim. Se agradou ao santo como ao promesseiro? Não é possível afirmar nada ainda, mas Neneco marcou um belo gol na última partida.

* Thiago Fragata, historiador, escritor, multiartista. E-mail: [email protected]

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